Mostrando postagens com marcador A VOZ DO PASTOR. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A VOZ DO PASTOR. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Lumen Fidei.9 - Chamado e Promessas de Deus

               


          A palavra de Deus comunicada a nós, ainda hoje tem este mesmo efeito em nossa vida: uma chamada e uma promessa. Uma chamada, no sentido de retomar a direção original de nossa existência, a felicidade, não firmada na transitoriedade, mas no eterno. Em um segundo momento, uma promessa, na perspectiva de que uma vida pautada nas palavras e nos ensinamentos de Cristo, de fidelidade a sua Igreja, nos garantirá o acesso à presença do Pai. De forma específica, também na realidade específica de cada um, mediante as particularidades de nossa história de vida, Deus tem também chamadas e promessas. No dia de hoje, você sabe a que o Pai te chama? Consegue estar atento as suas promessas? 


9. Esta Palavra comunica a Abraão uma chamada e uma promessa. Contém, antes de tudo, uma chamada a sair da própria terra, convite a abrir-se a uma vida nova, início de um êxodo que o encaminha para um futuro inesperado. A perspectiva, que a fé vai proporcionar a Abraão, estará sempre ligada com este passo em frente que ele deve realizar: a fé « vê » na medida em que caminha, em que entra no espaço aberto pela Palavra de Deus. Mas tal Palavra contém ainda uma promessa: a tua descendência será numerosa, serás pai de um grande povo (cf. Gn 13, 16; 15, 5; 22, 17). É verdade que a fé de Abraão, enquanto resposta a uma Palavra que a precede, será sempre um ato de memória; contudo esta memória não o fixa no passado, porque, sendo memória de uma promessa, se torna capaz de abrir ao futuro, de iluminar os passos ao longo do caminho. Assim se vê como a fé, enquanto memória do futuro está intimamente ligada com a esperança.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Lumen Fidei.6 e 7 - Fé, Esperança e Caridade

             
A Igreja, fiel a sua vocação de Mãe e Mestra, de forma inspirada e amorosa mais uma vez nos aponta a direção segura: o segmento de Cristo, por meio de um discipulado no amor. Deus se revela a nós de muitas formas, mas de maneira privilegiada através dos nossos irmãos. Do próximo, que está mais próximo. Não apenas pelos laços de sanguinidade ou de afetividade, mas pela vocação inexorável e incorruptível de filhos de Deus, coerdeiros da graça por meio de Jesus.

          A produção da presente encíclica por nós estudada nesta iniciativa, completa uma tríade por demais oportuna para a salvação pessoal e comunitária dos crentes: fé, esperança e caridade; por meio de uma dinâmica interação com Deus por meio do Espírito Santo.

6. O Ano da Fé teve início no cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II. Esta coincidência permite-nos ver que o mesmo foi um Concílio sobre a fé,[6] por nos ter convidado a repor, no centro da nossa vida eclesial e pessoal, o primado de Deus em Cristo. Na verdade, a Igreja nunca dá por descontada a fé, pois sabe que este dom de Deus deve ser nutrido e revigorado sem cessar para continuar a orientar o caminho dela. O Concílio Vaticano II fez brilhar a fé no âmbito da experiência humana, percorrendo assim os caminhos do homem contemporâneo. Desta forma, se viu como a fé enriquece a existência humana em todas as suas dimensões.
7. Estas considerações sobre a fé — em continuidade com tudo o que o magistério da Igreja pronunciou acerca desta virtude teologal [7] — pretendem juntar-se a tudo aquilo que Bento XVI escreveu nas cartas encíclicas sobre a caridade e a esperança. Ele já tinha quase concluído um primeiro esboço desta carta encíclica sobre a fé. Estou-lhe profundamente agradecido e, na fraternidade de Cristo, assumo o seu precioso trabalho, limitando-me a acrescentar ao texto qualquer nova contribuição. De facto, o Sucessor de Pedro, ontem, hoje e amanhã, sempre está chamado a « confirmar os irmãos » no tesouro incomensurável da fé que Deus dá a cada homem como luz para o seu caminho.
Na fé, dom de Deus e virtude sobrenatural por Ele infundida, reconhecemos que um grande Amor nos foi oferecido, que uma Palavra estupenda nos foi dirigida: acolhendo esta Palavra que é Jesus Cristo — Palavra encarnada –, o Espírito Santo transforma-nos, ilumina o caminho do futuro e faz crescer em nós as asas da esperança para o percorrermos com alegria. Fé, esperança e caridade constituem, numa interligação admirável, o dinamismo da vida cristã rumo à plena comunhão com Deus. Mas, como é este caminho que a fé desvenda diante de nós? Donde provém a sua luz, tão poderosa que permite iluminar o caminho duma vida bem sucedida e fecunda, cheia de fruto?

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Lumen Fidei.5 - A luz que gera vida



Qual tem sido a relevância da fé em nossa vida? De que maneira o que cremos interfere efetivamente em nossas decisões, opções e ideologias? O encontro amoroso com o Deus vivo, na pessoa de Jesus Cristo, deve gerar em nós uma metanóia na forma com a qual percebemos as pessoas e as coisas. Como uma mãe, a nossa fé deve nos indicar a direção, nos levar a dar os passos, nos situarmos no mundo, em meio a suas crises. E principalmente, nela e por ela, devemos viver o que acreditamos, tornando concreto em gestos e ações, o amor recebido por Deus e  o pleno cumprimento da ordem: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei.

5. Antes da sua paixão, o Senhor assegurava a Pedro: « Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça » (Lc 22, 32). Depois pediu-lhe para « confirmar os irmãos » na mesma fé. Consciente da tarefa confiada ao Sucessor de Pedro, Bento XVI quis proclamar este Ano da Fé, um tempo de graça que nos tem ajudado a sentir a grande alegria de crer, a reavivar a percepção da amplitude de horizontes que a fé descerra, para a confessar na sua unidade e integridade, fiéis à memória do Senhor, sustentados pela sua presença e pela ação do Espírito Santo. A convicção duma fé que faz grande e plena a vida, centrada em Cristo e na força da sua graça, animava a missão dos primeiros cristãos. Nas Actas dos Mártires, lemos este diálogo entre o prefeito romano Rústico e o cristão Hierax: « Onde estão os teus pais? » — perguntava o juiz ao mártir; este respondeu: « O nosso verdadeiro pai é Cristo, e nossa mãe a fé n’Ele ».[5] Para aqueles cristãos, a fé, enquanto encontro com o Deus vivo que Se manifestou em Cristo, era uma « mãe », porque os fazia vir à luz, gerava neles a vida divina, uma nova experiência, uma visão luminosa da existência, pela qual estavam prontos a dar testemunho público até ao fim.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Lumem Fidei.4 - Uma Luz a descobrir

           
Sob quais paradigmas estamos pautando a nossa vida? Quais as referências que temos utilizado em nossas escolhas e opiniões? Neste número, o Papa Francisco nos lembra que  “a luz da fé é capaz de iluminar toda a existência da humanidade”, e como diz Monsenhor Jonas, toda quer dizer toda. A existência de outras luzes menores é sim uma possiblidade em nossa vida, mas estas, nunca deverão suplantar a Luz maior que é Cristo. Por Ele e no seu amor, somos convidados a descortinar uma plenitude de significância em nossa existência temporal. A luz da fé, percebemos os verdadeiros caminhos que, enquanto cristãos, devemos percorrer.


4. Por isso, urge recuperar o carácter de luz que é próprio da fé, pois, quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam também por perder o seu vigor. De facto, a luz da fé possui um carácter singular, sendo capaz de iluminar toda a existência do homem. Ora, para que uma luz seja tão poderosa, não pode dimanar de nós mesmos; tem de vir de uma fonte mais originária, deve porvir em última análise de Deus. A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo. Por um lado, provém do passado: é a luz duma memória basilar — a da vida de Jesus –, onde o seu amor se manifestou plenamente fiável, capaz de vencer a morte. Mas, por outro lado e ao mesmo tempo, dado que Cristo ressuscitou e nos atrai de além da morte, a fé é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso « eu » isolado abrindo-o à amplitude da comunhão. Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para as nossas trevas. Dante, na Divina Comédia, depois de ter confessado diante de São Pedro a sua fé, descreve-a como uma « centelha / que se expande depois em viva chama / e, como estrela no céu, em mim cintila ». [4] É precisamente desta luz da fé que quero falar, desejando que cresça a fim de iluminar o presente até se tornar estrela que mostra os horizontes do nosso caminho, num tempo em que o homem vive particularmente carecido de luz.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Lumen Fidei.3 - Em que caminho está a nossa vida?

Com uma controversa ação interpretativa, há uma substancial deturpação de significados:

ü  O que conduz as trevas é compreendido como “caminho de luz”, ou seja, a razão e a percepção sensorial, como meios de plenificação da essência humana em seu caminho existencial.

ü  E o que conduz a Luz Maior, a Luz das luzes, de origem e longevidade eterna, é compreendido como um caminho de alienação, de um vazio de sentido ou como fruto da ilusão individual.


A questão que se coloca portanto, no horizonte desta reflexão é a seguinte: quem está a percorrer o caminho verídico? Nesta matéria ajudar-nos-á o Santo Padre: “Quando falta a luz, tudo se torna confuso: é impossível distinguir o bem do mal, diferenciar a estrada que conduz à meta daquela que nos faz girar repetidamente em círculo, sem direção.”

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Lumen Fidei.2 - Uma luz ilusória?

Aqui no número 2 do documento Lumen Fidei, surge a inquietante pergunta: Afinal, como podemos entender a fé? Ela nos lança no mundo da Verdade, para além das aparências sensoriais, ou pelo contrario, subtrai de quem a cultiva a busca da racionalidade existencial própria e característica do homem? Haveria espaço dentro de um ser, para a coexistência pacífica entre a fé e a “verdade”, como prenunciada por Nietzsche? Ou tal situação seria impraticável, pois uma anularia a outra? Para nós, dentro de nossa existencialidade, tendo por parâmetro a vida prática, qual tem sido a nossa busca: pela alma e felicidade ou pela “verdade” posta pelo mundo, do sensorial, concreto e palpável?

Um abraço.
Christian Moreira

Membro da Comunidade Canção Nova 


2. E contudo podemos ouvir a objecção que se levanta de muitos dos nossos contemporâneos, quando se lhes fala desta luz da fé. Nos tempos modernos, pensou-se que tal luz poderia ter sido suficiente para as sociedades antigas, mas não servia para os novos tempos, para o homem tornado adulto, orgulhoso da sua razão, desejoso de explorar de forma nova o futuro. Nesta perspectiva, a fé aparecia como uma luz ilusória, que impedia o homem de cultivar a ousadia do saber. O jovem Nietzsche convidava a irmã Elisabeth a arriscar, percorrendo vias novas (…), na incerteza de proceder de forma autónoma ». E acrescentava: « Neste ponto, separam-se os caminhos da humanidade: se queres alcançar a paz da alma e a felicidade, contenta-te com a fé; mas, se queres ser uma discípula da verdade, então investiga ».[3] O crer opor-se-ia ao indagar. Partindo daqui, Nietzsche desenvolverá a sua crítica ao cristianismo por ter diminuído o alcance da existência humana, espoliando a vida de novidade e aventura. Neste caso, a fé seria uma espécie de ilusão de luz, que impede o nosso caminho de homens livres rumo ao amanhã.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Lumen Fidei.1 - Jesus é a Luz que dissipa toda a Treva

            

           Atento as necessidades de nosso tempo e aos desafios pelos quais os crentes atravessam no mundo hodierno, o santo padre, Papa Francisco escreve sobre a Fé. Mas não somente sobre a fé, enquanto comportamento, postura filosófica ou teológica, mas como fonte de luz. Ou ainda mais, sobre como a fé deve ser para cada um dos cristãos católicos, a referência, o paradigma, o norte pelo qual deve-se referendar suas escolhas e decisões.
            
           É Jesus a luz que veio ao mundo e que dissipa toda treva. Apenas com ele nossa vida pode efetivamente deixar a superficialidade do efêmero e encontrar a sua essência no eterno.

É por conta disto, que iniciamos hoje essa coluna diária em nosso blog, sobre o documento do Papa Francisco, Lumen Fidei. Sempre transcreveremos um número do documento, seguido de uma breve reflexão. Esperamos desta forma, com o  auxílio do Espírito Santo, contribuir para que à Luz da Fé, com os olhos fixos em Jesus, possamos crer, para ver.

                                                                                  Um abraço Fraterno,

Christian Moreira
Membro da Comunidade Canção Nova

CARTA ENCÍCLICA
LUMEN FIDEI

DO SUMO PONTÍFICE
FRANCISCO  AOS BISPOS
AOS PRESBÍTEROS E AOS DIÁCONOS
ÀS PESSOAS CONSAGRADAS
E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS
SOBRE A FÉ


1. A luz da fé é a expressão com que a tradição da Igreja designou o grande dom trazido por Jesus. Eis como Ele Se nos apresenta, no Evangelho de João: « Eu vim ao mundo como luz, para que todo o que crê em Mim não fique nas trevas » (Jo 12, 46). E São Paulo exprime-se nestes termos: « Porque o Deus que disse: "das trevas brilhe a luz", foi quem brilhou nos nossos corações » (2 Cor 4, 6). No mundo pagão, com fome de luz, tinha-se desenvolvido o culto do deus Sol, Sol invictus, invocado na sua aurora. Embora o sol renascesse cada dia, facilmente se percebia que era incapaz de irradiar a sua luz sobre toda a existência do homem. De facto, o sol não ilumina toda a realidade, sendo os seus raios incapazes de chegar até às sombras da morte, onde a vista humana se fecha para a sua luz. Aliás « nunca se viu ninguém — afirma o mártir São Justino — pronto a morrer pela sua fé no sol ».[1] Conscientes do amplo horizonte que a fé lhes abria, os cristãos chamaram a Cristo o verdadeiro Sol, « cujos raios dão a vida ».[2] A Marta, em lágrimas pela morte do irmão Lázaro, Jesus diz-lhe: « Eu não te disse que, se acreditares, verás a glória de Deus? » (Jo 11, 40). Quem acredita, vê; vê com uma luz que ilumina todo o percurso da estrada, porque nos vem de Cristo ressuscitado, estrela da manhã que não tem ocaso.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Entrevista do Papa: Afinal, porque a mídia DETURPA tanto as palavras do Papa e da Igreja?


O Eterno e o ‘Tempo da Imprensa’

manipulacao-midiatica
 A desculpa para escrever este texto – que publico sem revisão por falta de tempo – é a enésima vez que um Papa (ou Bispo, ou padre, ou leigo católico conhecido como tal) diz uma coisa e a imprensa faz uma tempestade alucinada num dedal d’água, berrando aos sete ventos que “o Vaticano/Papa/Bispo mudou e agora é a favor de camisinhas/aborto/sodomia”.
Isto *sempre* acontece, e é *sempre* seguido por leigos nem-tão-engajados-assim, modernistas de direita e outras figuras da periferia católica rasgando as vestes, como se o absurdo que a imprensa disse fosse verdade.
E o Papa, Bispo, padre ou leigo engajado passa a ter mais trabalho para lidar com aqueles que com os judeus, pagãos, protestantes e orientais, que normalmente prestam mais atenção no que ele tenha a dizer quando querem saber qual é a dele.Isto acontece por uma razão simplíssima: o universo mental e o modo de lidar com a realidade da Igreja e da imprensa simplesmente não poderiam ser mais diferentes. Infelizmente, todavia, há muita gente que raciocina de modo mais semelhante ao da imprensa que ao da Igreja se manifestando nesta ocasião e em outras semelhantes.Vejamos quais são estes modos de ver o mundo, estes universos mentais tão díspares.
A imprensa é heraclítica. Para ela, só há mudança, devir, novidade.A novidade é a notícia, e é ela, e só ela, que interessa. O resultado é evidente quando se examina qualquer jornal, revista, noticiário, etc.: o que permanece não é notícia. Diz o ditado que quando um cachorro morde um homem, isso não é notícia; só é notícia o homem que morde o cachorro, justamente por ser diferente, ***novo***.
As milhares de crianças que nascem saudáveis não são notícia, mas se nascer um bebê com quatro braços, a imprensa em peso vai noticiar. A mais séria de modo comedido, a mais popularesca fazendo comparações com divindades hinduístas. Do mesmo modo, na política é notícia o que muda, o que sai do padrão. Na vida cotidiana, o crime, o incêndio, a tragédia.
A Igreja, por outro lado, é a portadora de uma mensagem eterna. Para a Igreja, estamos há dois mil anos na Plenitude dos Tempos; a Revelação já foi toda dada e concluída, e nada mais acontecerá de realmente importante até o fim dos tempos. Em outras palavras, a eternidade penetrou no tempo, dando-nos todos a possibilidade de adentrar a eternidade. E o papel da Igreja é este: ajudar-nos a adentrar a eternidade.
Vale notar os dois lados desta equação da vida eclesial: um é a eternidade, que não muda jamais.
A verdade, que é sempre a mesma. A natureza humana, que é sempre a mesma. O outro é a aplicação disto a cada um de nós. A Igreja conhece o ser humano como ninguém mais, sabe perfeitamente como cada coisa nos afeta, o que nos faz bem, o que nos faz mal, etc. Mesmo alguém que não tenha Fé pode perceber isto; afinal, dois mil anos prestando atenção no ser humano fatalmente a levariam a acumular algum conhecimento!!!
Os seguidores de religiões naturais tradicionais (como o hinduísmo, o budismo e algumas formas do islã), bem como os judeus ortodoxos, aliás, concordam em quase tudo com a Igreja no tocante ao ser humano, justamente por terem se dedicado, ao longo dos séculos, a estudá-lo.
Um clérigo católico experiente (padre, Bispo ou Papa) e ortodoxo há de ter passado algumas décadas a cuidar desta equação, a ajudar individualmente pessoa após pessoa a se tornar alguém melhor. Ele há de ter tido notícia de horrores inimagináveis, ouvidos no confessionário. Ele há de ter visto pessoas que caem após anos e anos de melhora. Não apenas a feiura dos nossos desejos desabridos, mas a ***falta de originalidade*** deles está profundamente gravada na maneira dele de ver o mundo.O primeiro sodomita, pedófilo, adúltero ou zoófilo há de espantar o padre recém-ordenado, que só havia estudado aquilo num compêndio de teologia moral. Ao longo dos anos, contudo, o que lhe salta aos olhos é a semelhança entre todos eles, o modo como toda tentação é parecida. É nesta hora que lhe é valioso o compêndio de teologia moral, que lhe lembra que por mais que um furto e um adultério sejam tão semelhantes, o efeito deles sobre a alma humana é diferente.
Trata-se, assim, de alguém que dedicou a vida a ajudar pessoas presas no tempo, pessoas que acham que aquela tentação – que é exatamente igual à do próximo! – é uma novidade absoluta, a adentrar a eternidade e deixa-la para trás. Para isto, ele tem um arsenal de técnicas mais que comprovadas pelo tempo, a serem aplicadas na direção espiritual e no aconselhamento. Sempre pessoa a pessoa, sempre tendo a eternidade como objetivo.Mas, afinal, o que levaria alguém a querer melhorar? O que levaria alguém a buscar a santidade – que nada mais é que a sanidade! –, ao invés de buscar mais dinheiro, mais sexo, mais ‘Aifones’ do último tipo, ou sei lá o que se vende hoje em dia como desejável?!Mysterium Fidei, este é o Mistério da Fé.
A Fé é uma graça divina. Em bom português, isto significa que ela é um presente de Deus ao homem, não uma decisão humana. A decisão – que existe! – é simplesmente de aceitar, ou não, a Fé que Deus oferece. Contra esta decisão há todo tipo de apego ao temporal (dinheiro, poder, sexo, Aifones… basicamente, tudo o que se perde na morte). A favor, contudo, há a perfeição divina. Há a ação dos Santos. Há os milagres (hoje, dia de São Januário, é o dia de um milagre que se repete regularmente há coisa de dezessete séculos!). Há a Verdade.
Parece um jogo ganho de antemão, mas sabemos todos – e mais ainda o sabe quem sentou por horas a fio, dia após dia, ano após ano, em um confessionário, ouvindo a horrenda banalidade do mal que se repete de coração em coração – que é tão fácil trocar nossa herança por um prato de lentilhas. Ou por um belo par de seios, ou por um empreguinho legal, ou um carro novo.
O que nos há de atrair a Deus, contudo, é sempre Ele mesmo. Em última instância, estamos falando de corresponder ao amor divino, um amor eterno, que ama cada indivíduo e ajuda – através da Igreja – cada indivíduo a se livrar daquilo que o torna menos ele mesmo. O pecado, afinal, é a negação de si mesmo. Quando eu peco, estou sendo falso em relação a mim mesmo. Se eu traio minha mulher, estou sendo menos o marido dela (que eu sou!) e mais um adúltero genérico, exatamente igual a todo e qualquer patético frequentador de casas de suingue ou bordéis.
Para a imprensa, contudo – e aí voltamos ao tema deste texto, que já parecia esquecido –, nada disso existe ou importa. Existe apenas a titilação da novidade, inclusive e especialmente a falsa novidade da última apresentação da mesma tentação velha e desgastada.
No momento, estamos na transição entre a titilação da sodomia – que está rapidamente deixando de ser titilante pelo excesso de repetição, a não ser que se trate de lesbianismo (mocinhas núbeis (tem) um apelo maior que o de rapazes fazendo o mesmo) – para a da pedofilia (que está passando de coisa medonha a coisa excitante do momento).
Mas tanto faz. Tanto uma quanto a outra são a mesma coisa, a mesmíssima e velhíssima prática de desviar-se do fim de um ato para arrancar dele um prazer que deveria ser a recompensa, não o objetivo. No fundo, dá no mesmo fornicar, entregar-se à sodomia, pedofilia ou zoofilia ou simplesmente, como faziam os romanos, comer e vomitar para poder comer mais. Ou comer produtos “diet” em megadoses, como se faz hoje em dia. É a mesma busca do prazer sem suas consequências, da recompensa sem o prêmio.
Quando, então, a imprensa e o clero – no momento, o Papa Francisco – tentam se comunicar, o que temos é um diálogo de surdos.
O Papa vai responder às perguntas que lhe são colocadas a partir do ponto de vista da eternidade (“sub species aeternitatis”), enquanto a imprensa vai buscar basicamente ***novidades***. Ora, por definição, não há novidades. A Revelação se concluiu com a morte do último dos apóstolos (aos curiosos, trata-se de S. João, no final do Século I; ele era adolescente quando da Crucifixão).
Desta forma, a imprensa vai buscar sempre os pontos em que a maluquice daquele momento, daquele segundo, daquela etapa microscópica dos interesses demagógicos e vacilantes de uma sociedade em decadência está em conflito com a eternidade, e tentar vender a falsíssima idéia de que há alguma novidade, de que a Igreja “finalmente mudou”, como se isso fosse possível. Há alguns dias, era um burocrata da Santa Sé que deu vazo a delírios da imprensa, torcendo suas palavras para usá- las como se ele negasse o celibato dos sacerdotes (e, mais ainda, como se esta suposta negação mudasse algo na doutrina da Igreja!). Agora, é uma série de delírios interpretativos absoluta e completamente bizarros acerca de algumas declarações do Santo Padre em uma entrevista, ignorando não só o contexto mas as próprias palavras dele para falar sandices acerca de aborto, sodomia e o que mais vier.
Temos, assim, de um lado, um clérigo falando da Eternidade. Do outro, um jornalista buscando a titilação do momento, o devir, a mudança.
Ora, como poderia haver algum diálogo?! Como poderia haver alguma comunicação??!!
A imprensa vai, sempre, tentar torcer as palavras dos clérigos. Não é por maldade, mas porque o “radar” deles só registra mudança, movimento. E os falsos positivos do radar são muitos; não sei você, caro leitor, mas em todos os temas que domino por força dos estudos ou da ação profissional, ao ver o que é publicado nos jornais a respeito, fico chocado com a má qualidade das informações.
Ao tratar da Igreja, então, que se lhe é tão radicalmente contrária em sua visão de mundo, é praticamente impossível que a imprensa faça uma leitura que tenha algum sentido. Tudo, sempre, vai retornar àquilo em que o fabulário geral do delírio cotidiano se afasta mais visivelmente do que é Eterno: no momento, é aborto, sodomia e camisinhas; daqui a alguns anos, pedofilia e zoofilia entrarão no jogo.
O que a Igreja prega, contudo, não é nem aborto, nem camisinhas, nem sodomia. Nem – por mais incrível que isso possa parecer a meus queridos coleguinhas jornalistas – a negação deles. A Igreja prega o Eterno. Estes temas, tão titilantes e palpitantes para o jornalista que simplesmente não consegue entender como cargas d’água alguém pode diferir da sabedoria coletiva do PSOL e das Organizações Globo, para a imensa maioria dos católicos mais sérios e comprometidos com a Fé, simplesmente não se registram no radar.
Eu mesmo, por exemplo, sou casado. Não tenho a menor intenção de cometer adultério, e creio que não fosse sequer saber como se usa uma camisinha (tomei jeito antes delas virarem coisa normal) se resolvesse cometê-lo. Tanto melhor: assim tenho ainda mais razões para não o cometer!…
A sodomia simplesmente não me atrai. Como, contudo, eu tenho cá minhas tentações, quem seria eu para brigar com alguém, ou mesmo para simplesmente trata-lo de modo diferente, por ele ter esta tentação?! Simplesmente não é da minha alçada.
Aborto, para mim, é exatamente igual a qualquer outra forma de homicídio: espero sinceramente jamais sofrer esta tentação, e espero ter forças para perdoar quem nela caia.
Nenhum destes temas jamais foi objeto de uma homilia que eu tenha ouvido numa Missa, por ser, para qualquer católico, algo evidente. Ao contrário, as boas homilias que ouvi, as que me fizeram sentar mais reto no banco para prestar mais atenção, falaram de como lidar com o que nos tenta, de como Deus Se nos revelou e Se nos revela, dos Sacramentos, dos Mandamentos, do amor conjugal de Cristo pela Igreja, etc.
Reduzir a Igreja à sua oposição a este ou aquele tema titilante da moda é simplesmente perder a Igreja de vista. É mais que evidente que isto ou aquilo é errado. Não é por a sociedade pregar isto ou aquilo como certo, contudo, que eles são errados: é por serem armadilhas velhíssimas, enferrujadas e cheias de teias de aranha, com as quais nós tentamos fugir da Eternidade que nos chama, e que é tão maior que tudo isso.
Quem, assim, reclama do Papa ou de qualquer clérigo por não tratar a imprensa como a imprensa quer ser tratada, por não cair em uma guerrinha imbecil de “pundits” e frases de efeito, simplesmente não entendeu a que vem a Igreja. E quem usa as imbecilidades que a imprensa publica sobre a Igreja para rasgar as vestes e entregar-se a escândalo farisaico, por vezes até condenando abertamente o Santo Padre, deveria calar a boca e voltar-se à eternidade. Num confessionário, e depois numa igreja vazia e sem luzes elétricas, de joelhos diante do Santíssimo. Do Eterno. De Deus, que não passa.
Na Festa de São Januário do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2013,
Na Quinta São Tomás, no Carmo de Minas,
Carlos Ramalhete,
Um pobre pecador, que mendiga uma sua Ave-Maria
Fonte:
Carlos Ramalhete

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Questão gay: “Papa Francisco não mudou nada das regras morais, mas ressaltou o “moralismo” rígido na abordagem da questão.


Fonte: ANSA
O jornal vaticano L’Osservatore Romano publicou nesta terça-feira, dia 30, que as recentes declarações do papa Francisco sobre o papel das mulheres na Igreja e o homossexualismo mostram que a religião “não deve ser uma rígida distribuidora de julgamentos, mas deve estar sempre pronta a acolher os pecadores, ou seja, todos nós”.
“Pode-se mudar tudo sem mudar as regras de base, aquelas sobre as quais se constrói a tradição católica. Esta é a posição do Papa inclusive [em relação] aos homossexuais”, apontou um artigo assinado por Lucetta Sacaraffia.
“Papa Francisco não muda nada das regras morais, mas anula um moralismo rígido fofoqueiro. Com poucas palavras, afasta da Igreja Católica acusações de homofobia que a perseguiram nos últimos tempos”, concluiu. Ainda de acordo com o artigo, com estas declarações, Francisco destacou questões as quais “tinha dado pouco espaço até agora”.
“Na longa, serena e aberta entrevista que o papa Francisco deu aos jornalistas, as grandes novidades são, sobretudo, duas: as mulheres e os homossexuais”, apontou o jornal.
“As declarações do Papa sobre o papel das mulheres na Igreja Católica são claras e revelam uma forte vontade de abertura”, acrescentou Sacaraffia. “A abertura é substancial e diretamente ligada ao projeto de reforma da Igreja: sem um reconhecimento aberto do papel das mulheres, não se pode esperar aquela Igreja vital e acolhedora que o papa Francisco deseja”.
“A novidade é expressa de modo claro e sem ameaçar as tradições da Igreja”, conclui a nota.
No começo desta semana, Francisco declarou, conversando com jornalistas presentes no avião que o levou de volta do Rio de Janeiro para a Cidade do Vaticano, que ele “não julga” uma pessoa por ser homossexual. “Quem sou eu por julgar? Não achei documentos de identidade gay no Vaticano. Dizem que têm, mas eu acredito que seja necessário distinguir o fato de uma pessoa ser gay do fato que faz lobby”, afirmou o Pontífice, explicando que “ser gay é uma tendência, o problema são os lobbies. Fazer lobby não é uma coisa certa”.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Papa reforça a comunicação da VERDADE através da internet.


O papa Bento 16 “abençoou” os meios de comunicação digital nesta terça-feira durante a apresentação do tema do Dia Mundial das Comunicações Sociais 2012 — debate promovido pela Igreja Católica a respeito das comunicações de massa.
De acordo com o pontífice, AS REDES SOCIAIS podem ajudar fieis a encontrarem respostas para algumas de suas dúvidas mais profundas, desde que intercaladas com períodos de silêncio e reflexão.
“Grande parte da dinâmica actual da comunicação é feita por perguntas à procura de respostas. Os motores de pesquisa e as redes sociais são o ponto de partida da comunicação para muitas pessoas, que procuram conselhos, sugestões, informações, respostas”, afirma.
“Devemos olhar com interesse para as várias formas de sites, aplicações e redes sociais (…) que na sua essencialidade, contém breves mensagens – muitas vezes limitadas a um só versículo, como na bíblia – que podem exprimir pensamentos profundos”, completa o Papa, para em seguida lembrar aos fiéis que o silêncio também é fundamental para que a humanidade encontre a iluminação.
“Em nossos dias, a rede vai-se tornando cada vez mais o lugar das perguntas e das respostas; mais, o homem se vê bombardeado por respostas a questões que nunca se pôs e a necessidades que não sente. O silêncio é precioso para favorecer o necessário discernimento entre os inúmeros estímulos e as muitas respostas que recebemos”, finaliza.
Essa não é a primeira vez que o Papa Bento XVI se mostra íntimo de novidades tecnológicas. No último Natal, por exemplo, usou um tablet para acender as luzes de uma árvore de Natal que estava a 220 km de sua residência.
Fonte: Guardian

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Solenidade de Cristo Rei

HOMILIA DO SANTO PADRE
Domingo, 26 de Novembro de 2000
1. "Tu o dizes: sou rei" (Jo 18, 37).
Assim respondeu Jesus a Pilatos num diálogo dramático, que o Evangelho nos faz ouvir novamente na hodierna solenidade de Cristo, Rei do universo. Nessa ocorrência, colocada na conclusão do ano litúrgico, Jesus, Verbo eterno do Pai, é apresentado como princípio e fim de toda a criação, como Redentor do homem e Senhor da história. Na primeira leitura, o profeta Daniel afirma: "O seu poder é um poder eterno, que nunca lhe será tirado. E o seu Reino é tal que jamais será destruído" (7, 14).

Sim, ó Cristo, Vós sois Rei! Paradoxalmente, a vossa realeza manifesta-se na cruz, na obediência ao desígnio do Pai "que como escreve o Apóstolo Paulo nos arrancou do poder das trevas e nos transferiu para o Reino do seu Filho amado, no Qual temos a redenção, a remissão dos pecados" (Cl 1, 13-14). Primogénito daqueles que ressuscitaram dos mortos, Vós, Jesus, sois o Rei da nova humanidade, restituída à sua dignidade primitiva.

Vós sois Rei! Porém, o vosso reino não é deste mundo (cf. Jo 18, 36); não é o fruto de conquistas bélicas, de dominações políticas, de impérios económicos, de hegemonias culturais. O vosso é um "reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz" (cf.Prefácio da solenidade de Cristo Rei), que se manifestará na sua plenitude no fim dos tempos, quando Deus será tudo em todos (cf. 1 Cor 15, 28). A Igreja, que já pode saborear na terra as primícias que se hão-de realizar no futuro, não cessa de repetir: "Venha o vosso reino", "Adveniat regnum tuum" (Mt 6, 10).

2. Venha o vosso reino! Rezam assim, em toda a parte do mundo, os fiéis que se reúnem hoje à volta dos seus Pastores para o Jubileu do Apostolado dos Leigos. Uno-me a eles com alegria neste coro universal de louvor e súplica, celebrando juntamente convosco, caros fiéis, a Santa Missa junto do Túmulo do Apóstolo Pedro.

Agradeço ao Cardeal James Francis Stafford, Presidente do Pontifício Conselho para os Leigos e aos vossos dois representantes, que no início da Santa Missa se fizeram intérpretes dos comuns sentimentos. Saúdo os venerados Irmãos no Episcopado, assim como os sacerdotes, religiosos e religiosas presentes. Estendo a minha saudação em especial a vós, irmãos e irmãs leigos,christifideles laici, activamente dedicados à causa do Evangelho: olhando para vós, penso também em todos os membros de comunidades, associações e movimentos de acção apostólica; penso nos pais e mães que, com generosidade e espírito de sacrifício, se consagram à educação dos seus filhos na prática das virtudes humanas e cristãs; penso em quantos oferecem à evangelização o contributo dos seus próprios sofrimentos, aceites e vividos em união com Cristo.

3. Saúdo-vos de modo particular, caros participantes no Congresso do Laicado católico, que bem se insere no contexto do Jubileu do Apostolado dos Leigos. O vosso encontro tem como tema "Testemunhas de Cristo no novo Milénio". Ele retoma a tradição dos congressos mundiais do Apostolado dos leigos, iniciada há 50 anos sob o impulso fecundo de uma consciência mais profunda que a Igreja tinha adquirido, quer da própria natureza do mistério de comunhão quer da sua intrínseca responsabilidade missionária no mundo.

No amadurecimento desta consciência, o Concílio Ecuménico Vaticano II assinalou uma mudança decisiva. Com o Concílio, na Igreja chegou verdadeiramente a hora do laicado e tantos fiéis leigos, homens e mulheres, compreenderam com maior clareza a própria vocação cristã que, por sua própria natureza, é vocação ao apostolado (cf. Apostolicam actuositatem, 2). A 35 anos da sua conclusão, digo: é preciso voltar ao Concílio. É preciso retomar nas mãos os documentos do Vaticano II para redescobrir a grande riqueza dos estímulos doutrinais e pastorais.

Deveis retomar nas mãos aqueles documentos, em particular vós, leigos, a quem o Concílio abriu extraordinárias perspectivas de envolvimento e de compromissso na missão da Igreja. O Concílio não recordou acaso a vossa participação na função sacerdotal, profética e real de Cristo? Os Padres conciliares confiaram-vos, de modo especial, a missão de "procurar o reino de Deus, tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus" (Lumen gentium, 31).

A partir de então, floresceu uma vivaz época agregativa, em que ao lado do associativismo tradicional surgiram novos movimentos, sodalícios e comunidades (cf. Christifideles laici, 29). Hoje, mais do que nunca, caríssimos Irmãos e Irmãs, o vosso apostolado é indispensável para que o Evangelho seja luz, sal e fermento de uma nova humanidade.

4. Mas o que comporta esta missão? Que significa ser cristão hoje, aqui e agora?

Ser cristão nunca foi fácil e tão-pouco o é hoje. Seguir Cristo exige a coragem de opções radicais, frequentemente contra a corrente. "Nós somos Cristo!", exclamava Santo Agostinho. Os mártires e as testemunhas da fé de ontem e de hoje, entre os quais tantos fiéis leigos, demonstram que, se for necessário, por Jesus Cristo não se deve hesitar nem sequer em dar a própria vida.

A este propósito, o Jubileu convida todos a um sério exame de consciência e a uma duradoura renovação espiritual, para uma acção missionária cada vez mais activa. Agora quero retomar aquilo que, há 25 anos, quase no encerramento do Ano Santo de 1975, o meu venerado predecessor Papa Paulo VI escrevia na Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi: "O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres... ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas" (n. 41).

São palavras válidas ainda nestes dias, diante de uma humanidade rica de potencialidades e de expectativas, porém ameaçada por múltiplas insídias e perigos. Basta pensar, entre outras coisas, nas conquistas sociais e na revolução no campo genético; no progresso económico e no subdesenvolvimento existente em vastas áreas do planeta; no drama da fome no mundo e nas dificuldades existentes para assegurar a paz; nas minuciosas redes das comunicações e nos dramas da solidão e da violência difundidos pela crónica diária. Caríssimos Irmãos e Irmãs, como testemunhas de Cristo, sois chamados especialmente vós a levar a luz do Evangelho aos centros vitais da sociedade. Sois interpelados a ser profetas da esperança cristã e apóstolos "d'Aquele que é, que era e que vem, o Omnipotente!" (Ap 1, 4).

5. "A santidade é o adorno da tua casa!" (Sl 92, 5). No Salmo responsorial, voltamo-nos para Deus com estas palavras. A santidade continua a ser o maior desafio para os fiéis. Devemos estar gratos ao Concílio Vaticano II que nos recordou que todos os cristãos são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade.

Caríssimos, não tenhais medo de enfrentar este desafio: ser homens e mulheres santos! Não esqueçais que os frutos do apostolado dependem da profundidade da vida espiritual, da intensidade da oração, de uma formação constante e de uma adesão sincera às directrizes da Igreja. Repito-vos hoje, como fiz aos jovens durante a recente Jornada Mundial da Juventude, que se fordes o que deveis ser isto é, se viverdes o cristianismo sem comprometimentos podereis incendiar o mundo.

Esperam-vos deveres e metas que podem parecer desproporcionados às forças humanas. Não percais a coragem! "Aquele que em vós iniciou esse bom trabalho, vai continuá-lo até que seja concluído" (Fl 1, 6). Conservai sempre fixo o olhar em Jesus. Fazei d'Ele o coração do mundo.

E Tu, Maria, Mãe do Redentor, sua primeira e perfeita discípula, ajuda-nos a ser as suas testemunhas no novo milénio. Faz que o teu Filho, Rei do universo e da história, reine na nossa vida, nas nossas comunidades e no mundo inteiro!

"Louvor e honra a Vós, ó Cristo!". Com a vossa Cruz redimistes o mundo. A Vós confiamos, no início do novo milénio, o nosso compromisso ao serviço deste mundo que Vós e nós amamos. Sustentai-nos com a força da vossa graça! Amém.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Catequese de Bento XVI sobre o Salmo 109 (110) - 16/11/2011



CATEQUESE
Praça de São Pedro
Quarta-feira, 16 de novembro de 2011


Caros irmãos e irmãs,
Gostaria hoje de terminar as minhas catequeses sobre a oração do Saltério meditando um dos mais famosos "salmos reais", um Salmo que Jesus mesmo citou e que os autores do Novo testamento o usaram amplamente e o leram fazendo referência ao Messias, a Cristo. Se trata do Salmo 110 segundo a tradição hebraica, 109, segundo a tradição greco-latina; um Salmo muito amado pela Igreja antiga e pelos fiéis de todos os tempos. Esta oração estava talvez ligada à entronização de um rei davídico, todavia, o seu sentido vai além da específica contingência do fato histórico abrindo-se a dimensões mais amplas e tornando-se assim a celebração do Messias vitorioso, glorificado à direita de Deus.

O Salmos inicia com uma declaração solene:

Oráculo do Senhor ao meu Senhor: Sente-se à minha direita, afim que eu coloque os teus inimigos sob o escabelo dos seus pés"

O próprio Deus entroniza o rei na glória, fazendo-o sentar-se à sua direita, um sinal de grandíssima honra e de absoluto privilégio. O rei é admitido em tal modo que participa do senhorio divino, do qual é mediador junto ao povo. Tal senhorio do rei se concretiza também na vitória sobre os adversários, que vem colocados aos pés do próprio Deus, a vitória sobre os inimigos é do Senhor, mas o rei se fez participante e o seu triunfo se torna testemunho e sinal do poder divino.

A glorificação real, expressa no início do Salmo, foi elevada no novo testamento como profecia messiânica, por isto, o versículo é entre os mais usados pelos autores neotestamentários como citação explícita ou como alusão. Jesus mesmo mencionou este versículo a propósito do Messias, para mostrar que o Messias é mais que Davi, é o Senhor de Davi. E Pedro, o retoma no seu discurso em Pentecostes, anunciando que na ressurreição de Cristo se realiza esta entronização do rei.Cristo está à direita do pai, participa do senhorio de Deus no mundo. É o Cristo, de fato, o Senhor entronizado, o Filho do homem sentado à direita de Deus que vem sobre a nuvens do céu, como Jesus mesmo se define durante o processo diante do Sinédrio. É Ele o verdadeiro rei que com a ressurreição entrou na glória à direita de Deus, feito superior aos anjos, sentado nos céus acima de todas as potências e com todos os adversários sob seus pés, até que a última inimiga, a morte, seja por ele definitivamente derrotada. E se entende logo que este rei que está à direita de Deus participa do seu senhorio, não é um desses homens sucessores de Davi, mas o novo Davi, o Filho de Deus que venceu a morte e participa realmente da glória de Deus. É o nosso rei, que nos dá também a vida eterna.

Entre o rei celebrado pelo nosso salmo e Deus existe uma grande relação; os dois governam juntos um único governo, ao ponto que o Salmista pode afirmar que é Deus mesmo a estender o cetro do soberano dando-lhe a tarega de dominar sobre os seus adversários, como recita o versículo 2:

"O Senhor estenderá desde Sião teu cetro poderoso: "Dominarás, disse ele, até no meio dos teus inimigos".

O exercício do poder é um encargo que o rei recebe diretamente do Senhor, uma responsabilidade que deve viver na dependência e na obediência, tornando-se assim, sinal em meio ao povo, da presença potente e providente de Deus. O domínio sobre os inimigos, a glória e a vitória são dons recebidos, que fazem do soberano um mediador do triunfo divino sobre o mal. Ele domina sobre os inimigos transformando-os, os vence com seu amor.

Por isso, no versículo seguinte, se celebra a grandeza do rei. O versículo 3, na realidade, apresenta algumas dificuldades de interpretação. No texto original hebraico se faz referência à convocação do exército, a qual o povo responde generosamente colocando-se ao redor do seu soberano no dia da sua coroação. A tradução grega que é do III-II século a.C, ao invés disso, faz referência à filiação divina do rei, ao seu nascimento ou geração da parte do Senhor, e é esta a escolha interpretativa de toda a tradição da Igreja, para qual o versículo soa no seguinte modo.

"No dia do teu nascimento, já possuis a realeza no explendor da santidade; semelhante ao orvalho, eu te gerei antes da aurora".

Com esta imagem sugestiva e enigmática termina a primeira estrofe do Salmo, o qual é seguido por um outro oráculo, que abre uma nova perspectiva, na linha de uma dimensão sacerdotal ligada à realeza. Recita o versículo 4:

O Senhor jurou e não se arrepende:
"Tu és sacerdote para sempre, segundo Melquisedeque".

Melquisedec era o sacerdote do rei de Salém e havia abençoado Abrãao e oferecido pão e vinho depois da vitoriosa campanha militar conduzida pelo patriarca para salvar o sobrinho Lot das mãos dos inimigos que o capturaram. Na figura de Melquisec, poder real e sacerdotal se encontram e agora vem proclamados pelo Senhor em uma declaração que promete eternidade: o rei celebrado pelo Salmo será sacerdote para sempre, mediador da presença divina em meio ao povo, através da benção que vem de Deus e que na ação litúrgica se encontra com a resposta abençoada do homem.

A carta aos hebreus faz uma referência explícita a este versículo e sobre esse centraliza todo o capítulo 7, elaborando a sua reflexão sobre o sacerdócio de Cristo Jesus, assim diz a carta aos hebreus à luz do Salmo 110 (109): 'Jesus é o verdadeiro e definitivo sacerdote, que leva ao cumprimento os tratados do sacerdócio de Melquisedeque tornando-os perfeitos'.

Melquisedeque, como diz a carta aos hebreus, não tinha pai, mãe e nem genealogia, é sacerdote, portanto, não segundo as regras da dinastia do sacerdócio levítico. Ele por isso, permanece 'sacerdote para sempre', prefiguração de Cristo, sumo sacerdote perfeito que não se tornou como tal segundo a lei prescrita pelo homens, mas pela potência de uma vida indestrutível. No Senhor Jesus ressucitado e elevado aos céus, que senta à direta de Deus, se atualiza a profecia do nosso Salmo e o sacerdócio de Melquisedeque é levado a cumprimento, porque sendo absoluto e eterno, se torna uma realidade que não conhece fim. E a oferta do pão e do vinho, realizada por Melquisedeque, encontra seu cumprimento no gesto eucarístico de jesus, que no pão e no vinho oferece a si mesmo e, vencida a morte, leva a vida a todos os fiéis. Sacerdote perene, santo, inocente, sem mancha, Ele, como diz ainda a carta aos hebreus, pode salvar prefeitamente aqueles que por meio dele se aproximaram de Deus; Ele, de fato, é sempre vivo para interceder a favor deles.

Depois deste oráculo divino do versículo 4, com seu solene juramento, a cena do Salmo muda e o poeta, voltando-se diretamente ao rei, proclama: "O Senhor está à tua direita". Se no versículo 1 era o rei a sentar-se à direita de Deus em sinal de sumo prestígio e de honra, agora é o Senhor a colocar-se à direita do soberano para protegê-lo como o escudo na batalha e salvá-lo de todo perigo. O rei está seguro, Deus é o senhor defensor e juntos combatem e vencem todo mal.
Se abrem assim, os versículos finais do Salmo com a visão do soberano triunfante que, apoiado pelo Senhor, tendo recebido DEle poder e glória, se opõe aos inimigos confundindo os adversários e julgando as nações. A cena é pintada com tintas fortes, para significar a dramaticidade do combate e a plenitude da vitória real. O soberano, protegido pelo Senhor, abate todos os obstáculos e procede seguro rumo à vitória. Nos diz: Sim, no mundo existe tanto mal, existe uma batalha permanente entre o bem e o mal, e parece que o mal é mais forte. Não, mais forte é o Senhor, o nosso verdadeiro rei e sacerdote Cristo, porque combate com toda a força de Deus e, apesar de todas as coisas que nos fazem duvidar do êxito positivo da história, vence Cristo e vence o bem, vence o amor e não o ódio.É aqui que se insere a sugestiva imagem com a qual se conclui o nosso Salmo, que também tem uma palavra enigmática:

"Beberá da corrente no caminho; por isso, erguerá a sua fronte"

Em meio à descrição da batalha, se mostra a figura do rei, que em um momento de trégua e de repoiuso, se coloca em uma torrente de água, encontrando nisso restauração e novo vigor, ao ponto de poder retomar o seu caminho triundante, com cabeça erguida, em sinal de definitiva vitória. É óbvio que esta palavra muito enigmática era um desafio para os padres da Igreja e para as diversas interpretações que se podiam dar. Assim, por exemplo, Santo agostinho diz: esta torrente é o ser humano, a humanidade, e Cristo bebeu desta fonte fazendo-se homem, e assim, entrando na humanidade do ser humano, elevou a sua cabeça e agora é o chefe do Corpo místico, é o nosso chefe, é o vencedor definitivo".

Caros amigos, seguindo a linha interpretativa do novo testamento, a tradição da Igreja levou em consideração este salmo como um dos mais significativos textos messiânicos. E, em modo eminente, os padres fizeram contínuas referências em chave cristológica: o rei cantado pelo salmista é, em definitiva, Cristo, o Messias que instaura o Reino de Deus e vence as potências do mundo, é o Verbo gerado pelo Pai, antes de toda criatura, antes da aurora, o Filho encarnado morto e ressuscitado que subiu aos céus, o sacerdote eterno, que, no mistério do pão e do vinho, doa a remissão dos pecados e a reconciliação com Deus, o rei que eleva a cabeça triunfando sobre a morte com a sua ressurreição. Bastaria recordar  mais uma vez o comentário de Santo Agostinho sobre esse salmo: "Era necessário conhecer o único Filho de Deus, que estava por vir entre os homens, para assumir o homem e para se tornar homem através a sua natureza, devia ser preanunciado, devia ser marcado como destinado a vir, para que, vindo de repente, não causasse espanto, mas fosse preanunciado, mais do que isso, aceito com fé, alegria e espera. No âmbito destas promessas se coloca este Salmo, o qual profetiza, em termos seguros e explícitos, o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que nós não podemos minimamente duvidar que nesse seja realmente anunciado o Cristo".

O evento pascal de Cristo se torna, assim, a realidade que nos convida a olhar o Salmo, olhar o Cristo para compreender o sentido da verdadeira realeza, para viver no serviço e no dom de si, em um caminho de obediência e de amor levado até o fim. Rezando este Salmo, pedimos, portanto ao Senhor de poder proceder também nós sobre suas vias, no seguimento de Cristo, o rei Messias, dispostos a subir com Ele o monte da cruz, para chegar com Ele na glória, e contempla-lo à direita de Deus, rei vitorioso e sacerdote misericordioso que doa perdão e salvação a todos os homens. E também nós feitos, por graça de Deus, estirpe eleita, sacerdócio real e nação santa, possamos atingir com alegria as fontes da salvação e proclamar a todo o mundo as maravilhas daquele que nos chamou das trevas à sua luz maravilhosa.

Caros amigos, nestas últimas catequeses quis apresentar-vos alguns Salmos, preciosas orações que encontramos na Bíblia e que refletem as varias situações da vida e os varios estados de ânimo que podemos ter na direção de Deus. Gostaria agora de renovar a todos o convite de rezar com os Salmos, talvez acostumando-se a utilizar a liturgia das horas da Igreja, as laudes da manhã, as vésperas do fim da tarde, as completas antes de dormir. Desta forma, o nosso relacionamento com Deus vai ser enriquecido no cotidiano caminho em direção à Ele e realizado com maior alegria e confiança. obrigado