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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

31º Domingo do Tempo Comum – Ano A - Liturgia da Palavra: "Autenticidade de vida e testemunho do Evangelho"

Autenticidade de vida e testemunho do Evangelho
Leituras: Ml 1,14b-2,1.8-10; 1 Ts  2,7b-9.13; Mt 23, 1-12
“Se eu, o Mestre e o Senhor, vos lavei os pés, também deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais” (Jo 13,14-15). O próprio Jesus se torna sempre a realização encarnada da Palavra que nos entrega. Seu exemplo precede seu ensino, e deste constitui a força interior que lhe dá autoridade e eficácia. 
Movido pelo impulso do Espírito e inspirado pelo exemplo de Jesus, Paulo afirma que seu ministério apostólico no meio da comunidade dos tessalonicenses foi exatamente a atuação do exemplo e do mandamento de Mestre: “foi com muita ternura que nos apresentamos a vós, como uma mãe que acalenta seus filhinhos. Tanto bem vos queríamos, que desejávamos dar-vos não somente o evangelho de Deus, mas até a própria vida” (1 Ts 2,7b-8). E acrescenta pouco depois “Bem sabeis que exortamos a cada um de vós, como um pai aos filhos” (1 Ts 2, 11).
Não é fácil encontrar hoje em homilias de padres e em cartas pastorais de bispos uma linguagem tão apaixonada e humana, capaz de expressar aquela autêntica experiência da paternidade e da maternidade espiritual na qual a Igreja, através do serviço e da dedicação generosa dos seus ministros, nos gera à vida de Deus na fé, e se torna nossa “mãe”. Quantas vezes estamos proclamando na linguagem eclesiástica corrente do dia-a-dia que a Igreja é nossa mãe!
Quanto da paixão e da ternura da mãe e do empenho generoso e sábio do pai - que o apóstolo reivindica como características do seu serviço ao evangelho para os tessalonicenses - moldam de verdade nossas atitudes pastorais, e alimentam nossa pregação e catequese, enquanto somos chamados a não somente “escutar”, mas “encontrar” a boa nova libertadora de Jesus, que transforma e dá vida?
As duras palavras de Jesus na polêmica contra os fariseus colocam em luz a contradição radical entre palavras e comportamentos, sobretudo nas pessoas que, na comunidade, têm a missão e a tarefa de abrir o caminho aos irmãos e irmãs para encontrar a Deus, o Pai fonte de toda paternidade (cf. Ef 3,15), que cuida, educa e acompanha com ternura de mãe seus filhos amados, até que se tornem adultos (cf. Os 11, 1-4).
Os fariseus e os mestres da lei proporcionam um ensino autorizado do qual é preciso ter conta, enquanto guarda em si a Palavra viva que vem de Deus e que transcende a postura pessoal deles. Seu estilo de vida deveria ser o espelho da mesma palavra e dar a ela credibilidade. Ao invés se torna um tropeço que atrapalha a vida do povo. Distinguir as situações ambíguas, com sabedoria e discernimento crítico no Espírito, como convém a pessoas maduras na fé, e pegar a distância das falsas aparências, para seguir o único verdadeiro Senhor, Pai e Mestre: eis a vocação e o desafio para os verdadeiros discípulos em todo tempo.
“Por isso deveis fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imiteis suas ações! Pois eles falam e não praticam” (Mt 23, 3). Evidenciando uma série de contradições, Jesus destaca dois pecados fundamentais, que constituem o núcleo venenoso da alma, a hipocrisia, isto é, a manipulação da verdade para consigo mesmo, diante de Deus e na relação com os demais.
O primeiro pecado é a tentativa de esconder-se atrás de um aparente zelo religioso, identificado com a rígida observância da Lei, por eles aludida, mas carregada sobre os ombros do povo, observância desprovida de todo amor e autenticidade (Mt 23, 4). O segundo pecado é a procura em chamar a atenção do povo para si mesmo, colocando-se no lugar próprio de Deus, ao ostentar formas e palavras, capazes de capturar os simples, em vez de guiá-los ao Senhor da vida (Mt 23, 5-7).
Jesus se coloca na linha do profeta Malachias, que denuncia a perversão da própria missão por parte dos sacerdotes. Eles deveriam ser de ajuda e servir de guias para viver com fidelidade a aliança; ao contrário: se tornaram “pedra de tropeço” para os pobres (1ª Leitura, Ml 2, 8).
Os pequeninos são os privilegiados do Pai! Por isso a ameaça de Jesus se faz ainda maior daquela já severa que encontramos aqui. “Caso alguém escandalize um destes pequeninos que crêem em mim, melhor seria que lhe pendurassem ao pescoço uma pesada mó e fosse precipitado nas profundezas do mar!” (Mt 18,6).
O tropeço e o escândalo dos pequeninos não passam somente através dos comportamentos abertamente em contradição com o evangelho e o ensino da Igreja. Quando isso acontece, é mais fácil reconhecer o desvio e se defender. Hoje em dia atuam também duas formas, dentre outras, de possíveis desvios do caminho próprio do discípulo de Jesus.
Todo mundo é alertado contra certa mentalidade secular que descuida de Deus e da dimensão espiritual da existência humana, para seguir um relativismo individualista e limitado ao nível do bem estar material.
Outro perigo mais sutil é a exploração do sentimento religioso espontâneo e simples das pessoas, dobrando-o para formas pobres de conteúdo, fortemente ligadas às emoções, sem o cuidado paterno e materno de Paulo, para educar este mesmo sentimento religioso, e acompanhar os fieis a gozar das riquezas espirituais que a Igreja proporciona para todo o povo na Palavra de Deus, na Liturgia, na formação mais consciente e adulta da própria fé.
Ao pegar nas mãos certas publicações que se dizem de caráter piedoso, e ao olhar certos programas de TV (não somente evangélicos!), que pretenderiam alimentar a fé do povo de Deus, vêm naturalmente à mente as severas palavras de Jesus no evangelho de hoje! Muitas vezes são propostas na realidade formas quase mágicas de piedade, embora os altares apareçam bem arrumados, segundo as exigências das rubricas litúrgicas!
Para onde foi o luminoso empenho da Igreja assumido através do Concílio Vaticano II, orientado a reconduzir a fé e a piedade do povo de Deus às suas divinas raízes da Palavra de Deus e do mistério pascal de Cristo na liturgia, renovando as bases da catequese, para que se tornasse mais idônea a iluminar a mente e a esquentar o coração das pessoas com a caridade de Cristo?
Para onde foi o caminho de comunhão entre todos os membros do povo de Deus, peregrino na esperança rumo à vinda gloriosa do Senhor, que sustenta seu caminho, o ilumina, o faz solidário com todos os homens e mulheres do nosso tempo, e o abre à esperança?
Esta foi a grande estrela polar da eclesiologia promovida pelo Concílio Vaticano II, retomando a mais antiga e original tradição da Igreja.
A Igreja está se preparando a celebrar no ano 2013 os cinqüenta anos da abertura do Concílio ecumênico Vaticano II (1963- 2013). Este aniversário deveria constituir uma oportunidade para todos redescobrirem as grandes Constituições do Concílio (os principais documentos doutrinais e pastorais), e assumir com renovado empenho o caminho de renovação e de autenticidade da vida cristã que o Espírito Santo abriu para a Igreja.
Em qual terreno está caindo, dentro das nossas comunidades, a fecunda semente de vida lançada pelo papa Bento XVI, com a Exortação apostólica “Verbum Domini - A Palavra do Senhor” (2008), que, num gesto de profunda comunhão com os bispos da Igreja católica, assumiu as sugestões do Sínodo dos bispos, para colocar novamente no centro do coração da Igreja e da vida de todos os fieis a Palavra de Deus, que é o próprio Jesus, Palavra-Verbo do Pai?
Este é o caminho para, no nosso tempo, cultivar e promover uma fé e uma piedade autênticas, capazes de enfrentar os desafios da secularização e do falso “pietismo” de certas propostas religiosas, que podem nascer da boa vontade, mas que não conseguem fundamentar bastante as pessoas diante dos novos desafios.
O Encontro de Reflexão, Diálogo e Oração, promovido pelo papa em Assis no dia 27 de outubro, 25o aniversário do primeiro encontro organizado pelo Bem Aventurado papa João Paulo II (1986), tem como horizonte espiritual o lema “Peregrinos da verdade, peregrinos da paz”. O espírito com que o papa tem promovido este evento e o lema que o identifica destacam bem a exigência de crescer na autenticidade da relação com o mistério de Deus que nos habita e nos transcende, e na relação para com todos os membros da família humana, qualquer que seja a forma religiosa ou cultural, para expressar e honrar este mistério divino. Este encontro do dia 27 é preciso que de algum modo faça parte da celebração da eucaristia deste domingo, como palavra atualizadora do evangelho e da páscoa de Jesus.
Os estudiosos do Novo Testamento nos advertem que o tom altamente polêmico do trecho do evangelho de Mateus proclamado na liturgia deste domingo, se de um lado parece exagerar na leitura negativa do movimento dos fariseus, assim como se exprimia no tempo de Jesus, de outro lado, provavelmente, tende a marcar o perigo da hipocrisia e da modalidade errônea de se exercer a autoridade dentro da própria comunidade cristã no tempo do evangelista.
Tais riscos, seria esta a mensagem do evangelista, não se encontram somente no povo dos judeus, mas também na comunidade dos discípulos de Jesus, na nossa comunidade, em qualquer tempo e lugar.
Para os discípulos, Jesus indica outros critérios de relações recíprocas, e outro modelo para exercitar em maneira autêntica a autoridade: “Quanto a vós, nunca....” (Mt 23,8-12).
Diante da perspectiva da paixão, passagem escolhida pelo Pai para realizar a missão de Jesus como Messias e Salvador, os discípulos não conseguem entender o mistério de Jesus. E, sobretudo, não conseguem entender o que isto deveria significar para eles mesmos, enquanto seus “discípulos”. Continuam brigando entre si, sobre quem deveria ocupar os primeiros postos de poder entre eles.
Jesus revira as perspectivas: “Sabeis que os governadores das nações as dominam... Entre vós não deverá ser assim. Ao contrário, aquele que quiser tornar-se grande entre vós seja aquele que serve, e o que quiser ser primeiro dentre vós, seja o vosso servo. Desse modo o filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate por muitos” (Mt 20, 25-28).
Eis fundada a razão porque ninguém, entre os discípulos, pode pretender o “título” de mestre, de pai, de guia. Estas funções pertencem ao Pai e a seu Filho Jesus, que atua no Espírito Santo (Mt 23, 8-10). 
Cristo, que se esvazia de todo poder e de aparência de glória, que lhe pertencem enquanto Verbo do Pai, e assume a fragilidade do escravo, morrendo na cruz, suprema manifestação do seu amor e da sua glória, permanece a fonte e o modelo de toda comunidade cristã, nas relações entre seus membros e no exercício da autoridade (cf Fl 2, 6-11).
Que sentido tem na Igreja as pessoas que exercitam os ministérios de ensinar, de suscitar a fé e de guiar e acompanhar o caminho de fé do povo de Deus?
Como diz a própria palavra “ministério”, elas são chamadas pelo Senhor a exercitarem um “serviço”, finalizado a promover a relação vital de cada um com o Pai, com o Mestre interior que é o Espírito, e com o Cristo, que é o verdadeiro caminho para o Pai. Nisto consiste toda a dignidade e a responsabilidade destes “ministros”. A partir da autenticidade desta delicada mediação, cada um precisa julgar seu próprio ministério na luz do Senhor, para verificar com humildade e sinceridade, se está de verdade servindo ao Senhor no seu povo, ou se por acaso não se está tornado pedra de tropeço para o mesmo.
Até a capacidade de servir o Senhor e o povo, como se convém, é graça. É a graça que a Igreja pede hoje, mais consciente do que nunca das próprias fragilidades: “Ó Deus de poder e misericórdia, que concedeis a vossos filhos e filhas a graça de vos servir como devem, fazei que corramos livremente ao encontro das vossas promessas”.

Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração
SÃO PAULO, quinta-feira, 27 de outubro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos o comentário à Liturgia da Palavra do 31° domingo do Tempo Comum – Ml 1,14b-2,1.8-10; 1 Ts  2,7b-9.13; Mt 23, 1-12 –, redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneu Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele é monge beneditino camaldolense.
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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

30º Domingo do Tempo Comum – Ano A - Liturgia da Palavra: "Dois mandamentos, um só amor"

30º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A
Dois mandamentos, um só amor
Leituras: Ex 22, 20-26; 1 Ts 1, 5c-10; Mt 22,34-40




“Mestre, qual é o maior mandamento da lei?”
“Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia seu irmão [na linguagem semítica “odiar” equivale a“não amar”], é um mentiroso: pois quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar.” (1 Jo 4, 20)
As palavras cortantes do “discípulo a quem Jesus amava”, não deixam dúvidas nem ilusões: o irmão é o “sacramento” no qual Deus se torna visível e tangível, aqui e agora. Nele se encontra Deus a cada dia e em cada momento e situação da vida. Quem não reconhece a Deus no irmão e não o ama, partilhando de suas necessidades e promovendo sua dignidade, ilude a si mesmo e talvez os demais, mas não pode enganar a Deus: é um mentiroso!
O amor é como a linfa vital que brota da única raiz, e se estende até os pormenores dos ramos e às folhas mais longínquas da árvore; do contrário, os ramos morrem e não dão frutos. O amor é como o sangue impelido pelo coração até as menores veias do corpo para alimentá-lo; em caso contrário, os órgãos fenecem. O amor, que é participação à própria vida de Deus, ou abrange num único abraço a Deus, a si mesmo e o irmão, ou se torna uma força que destrói a vida! Um amor dividido e limitado é uma mentira em relação às potencialidades que traz consigo, enquanto dom divino ao homem e à mulher.
Infelizmente os letrados que conhecem tão bem a letra da Torá, não estão procurando a verdade para crescer na qualidade da própria vida, mas armando armadilhas para experimentar e provocar dificuldade a Jesus. É o perene e sempre atual paradoxo dos que se aproximam de Deus não para viver, mas para desculparem-se a si mesmos e para não mudar de vida. “Mestre qual é o maior mandamento da lei?”. Pergunta não inusual dos discípulos aos mestres da lei, nas escolas de Israel. A resposta de Jesus, não fica nas nuvens das discussões acadêmicas familiares entre os letrados, mas aponta diretamente para o caminho da vida.
Se o homem, à causa da sua interioridade conflituosa, tem tendência a dividir e contrapor, Jesus, o “homem novo”, plenamente unificado em si mesmo e fonte de unidade, prospecta um horizonte de unidade e um caminho de responsabilidade. Segundo a narração de Lucas, ao fariseu que o interroga e lembra a proximidade dos mandamentos do amor a Deus e ao próximo, Jesus dá uma resposta lapidária: “Respondeste corretamente; faze isto e viverás” (Lc 10, 28-29). A atitude de Jesus retoma uma temática descrita no livro dos salmos: “Com o homem puro, tu és puro, com o astuto, tu és prudente”. (Sl 18,26)
Jesus, o Verbo encarnado do Pai, na fragilidade da sua condição de filho do carpinteiro e natural da desprezada cidadinha de Nazaré, nos revela o Pai e constitui o único e autêntico caminho que conduz à Ele. Do mesmo modo, o irmão e a irmã, sobretudo os que se encontram em maior fragilidade, nos fazem tocar com nossas mãos e nos revelam o próprio Jesus. É ele mesmo que neles é honrado, servido, ou desprezado: “Tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e recolhestes... Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes... Em verdade vos digo: todas as vezes que o deixastes de fazer a um desses pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” (Mt 25, 31-46).
O mistério da encarnação do Verbo de Deus continua atual, ao passar da pessoa de Jesus de Nazaré para os pobres; assim como a atuação do amor que transforma os corações das pessoas e a história, este continua a operar na pessoa de Jesus através dos que, nele permanecendo como os ramos na videira, produzem os frutos da vida nova. “Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros” (Jo 13,34).
A memória do amor de Jesus até o dom da própria vida, se torna memória que subverte as situações ambíguas, cultivadas pela falsa religiosidade e a espiritualidade desencarnada, que separam o suposto amor a Deus do efetivo amor aos irmãos. Tal memória denuncia a separação da sua nascente que é o exemplo pascal de Jesus e o Espírito que ele derramou da cruz, e que participamos por graça nos sacramentos da iniciação cristã.
Quando Jesus, na última ceia, partiu e distribuiu o pão aos discípulos, acompanhando o gesto com as palavras “Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em minha memória” (Lc 22,19), ele não se limitou a instituir simplesmente um “novo rito”, o rito da nova páscoa, mas entregou aos discípulos a “nascente perene” da existência nova, a ser construída nas recíprocas relações do dia a dia, e o “modelo divino” a testemunhar e difundir para uma nova humanidade. 
Eis como João, a partir da experiência pessoal do amor sem limites recebido de Jesus, sintetiza o horizonte de vida radicalmente novo, inaugurado por Jesus com a sua morte por amor, participado aos discípulos com a efusão do Espírito Santo, e entregue a eles como “mandamento novo”, que qualifica a aliança “nova” estipulada no seu sangue derramado por amor. “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,34-35; cf 15,12-14).
Da experiência do amor recebido e da capacitação por ele gerada, nasce a entrega do mandamento novo e a possibilidade de cumpri-lo, não como obrigação de uma lei exterior, mas como resposta à uma vocação que vem do interior , e como vida que segue e imita o exemplo do Senhor: Depois de ter lavado os pés aos discípulos com a humildade do escravo e o amor de uma mãe, Jesus acrescenta: “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais” (Jo 13, 15). 
Esta conformação interior a Cristo na sua páscoa é graça, e não fruto dos nossos esforços. Por isso a Igreja pede com humildade e confiança: “Ó Deus, que os vossos sacramentos produzam em nós o que significam, a fim de que um dia entremos em plena posse do mistério que agora celebramos” (Oração depois da comunhão).
À luz do exemplo de Jesus, os dois preceitos do Deuteronômio e do Levítico: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento” (Dt 6,5), e“Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18), não podem em nenhuma maneira ficar divididos. Em realidade, é na radical unidade recíproca destes que se realiza o projeto de vida de Deus, manifestado através da Torá e dos profetas. Paulo, com uma fórmula ainda mais lapidária, sintetiza assim a vida nova dos batizados em Cristo: “Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois o que ama o outro cumpriu a lei... Portanto a caridade é a plenitude da lei” (Rm 13, 8-10. cf Gl 5,13.15).
A leitura do Êxodo nos orienta para a mesma direção. A memória sagrada da experiência da libertação da escravidão do Egito, por iniciativa gratuita de Deus, funda a possibilidade e a exigência que para que Israel assuma, na organização da vida social, o mesmo estilo de atenção e de cuidado em relação aos mais necessitados e frágeis, como são as viúvas, os estrangeiros os pobres “Não oprimas nem maltrates o estrangeiro, pois vós fostes estrangeiros na terra do Egito. Não façais mal algum à viúva nem ao órfão” (Ex 22, 20-21). Deus está sempre da parte dos oprimidos e dos pobres: “Se os maltratardes, gritarão para mim, e eu ouvirei seu clamor” (Ex 22, 22). Assim fez Deus ao ouvir o clamor do seu povo sofrido na escravidão (cf. Ex 3, 7-8).
Hoje em dia, continua a levantar-se o grito de tantas pessoas oprimidas em muitas maneiras, mesmo nos direitos mais elementares da dignidade humana, nos países pobres, nos países em desenvolvimento, assim como nos países mais ricos.
Na Europa a atitude prevalente em relação aos imigrantes dos países mais pobres, é o medo e a recusa. Aos que conseguem entrar, muitas vezes são reservadas condições de escravidão e de abandono. O Papa Bento XVI tem repetido que a solução das violentas crises financeiras e econômicas atuais, passa para a necessária mutação do parâmetro do proveito como critério absoluto da economia, para o da solidariedade.
Também o Brasil, no processo de uma acelerada transformação, continua experimentando a marginalização de milhões de pessoas. O evangelho de hoje nos diz que como cristãos não podemos nos justificar, dizendo que tudo isso é problema que pertence aos profissionais da vida social e política. Cada um é chamado a iniciar de si mesmo, a se fazer “próximo” para os que se encontram no caminho cotidiano da sua vida, como fez o “bom samaritano:” Vai, e também tu, faze o mesmo” (Lc 10, 37).
O sofrimento dos pobres é um grito que se eleva ao Senhor, e interpela também nossa consciência de cristãos e cristãs, para um empenho de promoção da justiça e da partilha mais justa dos recursos culturais, sociais, econômicos, espirituais. Nossas celebrações da páscoa de Jesus nos domingos, poderiam cair sob a acusação de “Mentira” por parte de Jesus, se não nos procuramos sair do nosso interesse individual, para nos abrir ao serviço do Senhor na pessoa humana em que está impressa a imagem de Deus.
Paulo, na segunda leitura contempla com alegria as maravilhas operadas pela Palavra recebida com fé por parte dos tessalonicenses, que sob o impulso transformador do Espírito, tem assumido um estilo de vida moldado pelo exemplo do apóstolo e do próprio Jesus. Nesta maneira eles se tornaram “evangelho vivente” que continua se espalhando em toda a Macedônia e a Ásia (1 Ts 1,6- 8). Esta é também hoje a maneira mais eficaz para testemunhar e divulgar a “boa nova” de Jesus e de participar à “nova evangelização” à qual o papa Bento XVI está convidando todos os cristãos e as cristãs, com a promulgação do “Ano da fé” a se realizar no 2012-2013.  “Assim vos tornastes modelo para todos os fieis da Macedônia e da Ásia” (1 Ts 1,7).
O convite de Jesus a anunciar a boa nova é sempre atual, e o empenho para uma resposta generosa e criativa com a graça e o vigor do Espírito, sempre novo. Esta é a nossa páscoa que nos aproxima sempre mais ao cumprimento do reino de Deus, que nestes últimos domingos do ano litúrgico, a Igreja celebra como o horizonte central da própria fé e da própria esperança, movida pelo único amor a Deus e aos homens que anima seu coração de mãe. 
“Deus eterno e todo-poderoso, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade e dai-nos amar o que ordenais, para conseguirmos o que prometeis. Por Cristo nosso Senhor” (Oração do dia).

Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração
SÃO PAULO, quinta-feira, 20 de outubro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos o comentário à Liturgia da Palavra do 30° domingo do Tempo Comum – Ex 22, 20-26; 1 Ts 1, 5c-10; Mt 22,34-40 –, redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneu Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele é monge beneditino camaldolense.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

27º Domingo do Tempo Comum - Liturgia da Palavra: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”

Leituras: Is 5, 1-7; Sl 79 (80) 9.12.13-14, 15-16.19-20; Fl 4, 6-9; Mt 21, 33-43
“A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; pelo Senhor foi feito isso e é maravilha aos nossos olhos” (Mt 21, 42)
“A celebração do ano litúrgico encerra força peculiar e eficácia sacramental. Através dela, o próprio Cristo, [...] continua a sua via de imensa misericórdia, de tal modo que os fiéis de Cristo, não só comemoram e meditam os mistérios da Redenção, mas entram mesmo em contato com eles, comungam neles e por eles vivem” (Paulo VI, Mysterii paschalis, AAS 61 (1969), pp. 223-224).
Estas oportunas palavras do saudoso papa Paulo VI ilustram de modo admirável a importância da celebração do mistério de Cristo ao longo do tempo. A Igreja ao celebrar neste 27º domingo do Tempo Comum, nos coloca em contato direto com a presença do mistério pascal de Cristo, um mistério ocorrido na história há tanto tempo, mas atualizado no nosso hoje trâmite a liturgia. Esse mistério celebrado no tempo continua realmente a “via de imensa misericórdia” de um Deus que continua apaixonado pela humanidade.
É o que encontramos afirmado de modo solene na Oração do Dia: “Ó Deus eterno e todo-poderoso, que nos concedeis no vosso imenso amor de Pai mais do que merecemos e pedimos, derramai sobre nós a vossa misericórdia, perdoando o que nos pesa na consciência e dando-nos mais do que ousamos pedir”.
O profeta Isaías na primeira leitura apresenta esse amor desmedido de Deus para conosco; um amor que vai muito além do que de fato “merecemos e pedimos”. A imagem usada pelo profeta para indicar essa realidade amorosa será aquela da vinha (cf. Ct 1, 6; 2,15; 8,12).
Por meio de um poema, talvez baseado em alguma música usada durante o trabalho da vindima, o profeta narra uma paisagem inicialmente idílica: numa colina fértil o amado resolve plantar uma vinha. Lança mão de um trabalho amoroso, cercando de cuidados suas videiras, criando um ambiente no qual estas possam produzir as melhores uvas.
Porém, de uma imagem paradisíaca, rapidamente a cena muda: malgrado os cuidados do amado, contrariando todas as suas expectativas, a vinha apresentou-lhe apenas uvas bravas, azedas. Todo o enfado se faz então sentir por parte do amado: seus atos de amor e ternura não foram correspondidos.
Como se dá muitas vezes entre os amantes, quando um não corresponde ao outro, não corresponde à altura, a mágoa se faz grande...
O próprio profeta nos dá a conhecer que a vinha é uma imagem. É a figura de Israel em sua relação com Deus, representado neste cântico pela personagem do amado cheio de atenção para com suas videiras: “A vinha do Senhor é a casa de Israel” (Salmo responsorial).
No Antigo Testamento, com certa freqüência, a vinha é também imagem do amor para com o próximo, da solidariedade para com o outro (cf. Ex 23, 11; Dt 24, 21; Dt 23, 24; Lv 25, 3), ou seja, os frutos doces que o amado espera, são aqueles que lhe façam ver a correspondência do amor que brota de si nos corações dos homens, transbordado em ações que resultem no amor e no interesse para consigo e para com o próximo.
Deus porém, não é como um amante humano. Ele é a fonte do amor (cf. 1Jo 4,16) e por isso mesmo quer a nossa felicidade. Nosso grande problema é que vivemos por vezes num constante afastamento dele, em busca de outros amores ilusórios. Somente um retorno livre ao amor primeiro, uma metanóia profunda de nosso ser, poderá nos abrir a novas perspectivas: “Não mais nos apartaremos de Vós: fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome. Senhor, Deus dos Exércitos, fazei-nos voltar, iluminai o vosso rosto e seremos salvos”. (Salmo responsorial).
Essa imagem da vinha é retomada também por Jesus no Evangelho. A parábola é bem conhecida e faz referência à imagem apresentada por Isaías na primeira leitura. Um proprietário planta uma vinha e, à diferença do relato de Isaías, a arrenda para que outros aí trabalhem.
Quando chega o momento de colher os frutos de sua iniciativa, os arrendatários simplesmente negam-se a dar-lhe o que era devido: chegam mesmo a cometer diversas injustiças para com os emissários do proprietário. Ao final, depois de várias tentativas, o proprietário envia seu próprio filho que será morto de modo brutal pelos agricultores e a estes esperará a vingança do proprietário.
A parábola é uma alusão possível à situação que Jesus vivia junto aos judeus de sua época: o proprietário da vinha é Deus; os agricultores arrendatários seriam uma imagem para indicar os judeus; os servos emissários do proprietário seriam os profetas e, finalmente, o filho assassinado brutalmente seria o próprio Jesus, que ao se colocar em rota de colisão com as autoridades religiosas de sua época, muito provavelmente intuira sua possível morte violenta - “lançaram-no fora da vinha e o mataram”: curiosamente, de modo análogo, Jesus foi crucificado fora dos muros de Jerusalém e aí morreu.
Ao final da parábola aparece a imagem que apresentaria a superação de Israel pelo Novo Israel/Igreja.
Parece que Jesus ao construir essa parábola usou não só as imagens do Antigo Testamento – especialmente a história narrada no livro dos Reis sobre a vinha de Nabot (cf. 1Rs 21, 1ss) – mas também a realidade do seu tempo, o quotidiano das pessoas.
De fato, segundo alguns estudiosos, a Galiléia dos tempos de Jesus apresentava áreas cultiváveis que estavam, em sua maioria, nas mãos de proprietários estrangeiros. Por isso mesmo seria fato bastante comum estes grandes proprietários disporem de agricultores que trabalhassem como arrendatários. Ao final de determinados períodos do ano estes agricultores deviam pagar aos proprietários estrangeiros o percentual devido. Isso explicaria a necessidade do envio de servos para a cobrança das taxas cabíveis.
Nesse período da história é bem possível que houvesse um clima revolucionário entre os agricultores da Galiléia, haja vista as diversas correntes contrárias ao poder estrangeiro vigente em toda a Palestina.
A decisão de matar o filho para “ficar com a herança”, refletiria igualmente um aspecto da legislação judaica (cf. 1Rs 21, 15) e romana de então. Essa legislação previa que terceiros poderiam entrar na posse de todo e qualquer bem, quando deixasse de existir um legítimo proprietário.
Embora esta narração componha a maior parte do Evangelho proclamado neste domingo, ele deve ser ouvido na sua totalidade. Os versículos finais, com a citação do salmo 118, são de grande importância para uma melhor compreensão da mensagem deste evangelho, desta boa notícia.
Numa primeira leitura a parábola parece corresponder satisfatoriamente à compreensão humana da realidade, aliás, é baseado neste mecanismo de compreensão que são feitos alguns clichês utilizados na linguagem cinematográfica: toda vez que num filme há a figura de um herói, se constrói com freqüência uma história onde este deve sofrer desmedidas violências por parte de um inimigo.
Esses atos de injustiça atingem seu clímax na medida em que se mostra de algum modo a fragilidade do herói, evidenciando ainda mais a total iniqüidade e injustiça perpetrada pelos inimigos.
Tudo isso prepara a cena seguinte onde o herói, restabelecido em suas forças, contra-ataca e destrói seus inimigos levando os espectadores à total aprovação de seu ato heróico justificado, porém igualmente violento, ou melhor, ainda mais violento, já que normalmente os inimigos são totalmente destruídos.
De fato, na conclusão da parábola encontramos a resposta à pergunta de Jesus que bem reflete essa compreensão: “Quando voltar o dono da vinha, como tratará aqueles agricultores? Certamente destruirá aqueles malvados...”.
Porém, em meio à injustiça humana, ao pecado, Deus vai muito além, ao oferecer a sua misericórdia e o seu perdão: “derramai sobre nós a vossa misericórdia, perdoando o que mais nos pesa na consciência”. (Oração do dia).
Perdão divino oferecido por meio do sacrifício agradável do Filho e que necessita da resposta humana, traduzida em conversão e santificação. De fato, este é o alerta do apóstolo: “ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de qualquer modo mereça louvor. (...) Então o Deus da paz estará convosco.” (2ª Leitura, Fp 4, 8-9).
O dom de Deus pressupõe sempre uma atitude concreta e uma resposta livre dos cristãos, homens e mulheres, certamente imperfeitos, mas abertos à gratuidade: “Acolhei, ó Deus, nós vos pedimos, o sacrifício que instituístes e, pelos mistérios que celebramos em vossa honra, completai as santificação dos que salvastes” (Oração sobre as oferendas).
Deus, ao contrário das expectativas humanas, vai sempre muito mais além. Ele vê aquilo que os homens não enxergam: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; pelo Senhor foi feito isso e é maravilha aos nossos olhos” (Evangelho)
Deus, mediante a Ressurreição de seu Filho, injustamente morto “para a remissão dos pecados”da humanidade nos quer dar aquilo que do ponto de vista humano seria impensável, que sequer “ousaríamos pedir” (cf. Oração do dia): a própria vida divina.
“Possamos, ó Deus onipotente, saciar-nos do pão celeste e inebriar-nos do vinho sagrado, para que sejamos transformados naquele que agora recebemos” (Oração depois da comunhão).
Somente assim poderemos de fato produzir frutos doces de amor, de paz e justiça.

Por Gabriel Frade, professor de Liturgia e Sacramentos
SÃO PAULO, quinta-feira, 29 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos o comentário à Liturgia da Palavra do 27º Domingo do Tempo Comum – Is 5, 1-7; Sl 79 (80) 9.12.13-14, 15-16.19-20; Fl 4, 6-9; Mt 21, 33-43 – redigido pelo professor Gabriel Frade. Natural de Itaquaquecetuba (São Paulo), Gabriel Frade é leigo, casado e pai de três filhos. Graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), possui Mestrado em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora D’Assunção (São Paulo). Atualmente é professor de Liturgia e Sacramentos no Mosteiro de São Bento (São Paulo) e na UNISAL – Campus Pio XI. É tradutor e autor de livros e artigos na área litúrgica.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

26º Domingo do Tempo Comum – Ano A - Liturgia da Palavra: “os publicanos e as prostitutas vos precederão...”

26º Domingo do Tempo Comum – Ano A
Leituras: Ez 18, 25-28; Sl 24(25), 4bc-5.6-7.8-9; Fl 2, 1-11; Mt 21, 28-32
“Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas vos precederão no Reino de Deus” (Mt 21, 31)
A liturgia deste 26º domingo do Tempo Comum continua nos apresentando de modo particular a misericórdia e o amor de Deus pelo homem. A primeira leitura, tirada do livro do profeta Ezequiel, apresenta a palavra de Deus comunicada por meio do profeta e dirigida ao povo de Deus que se encontra na amarga experiência do exílio babilônico.
Diante do sofrimento brota uma acusação: “O modo de agir do Senhor não é justo!” (Ez 18, 25). Israel apresenta-se como imagem da condição humana, a qual, diante de um sofrimento aparentemente injusto, procura pleitear sempre a justiça num plano distributivo, isto é, restaurar aquilo que é devido conforme a necessidade de cada um. Certamente, do ponto de vista humano, trata-se de um princípio justo.
Afinal, em sua concepção, Israel tinha motivos para se lamentar: ele era o povo escolhido; havia construído um Templo no qual dia após dia se esmerava em prestar um culto ao Deus verdadeiro. Por que Deus fora tão injusto? Por que Israel estava no exílio?
Israel deve fazer um caminho para compreender que Deus não fora injusto, ele não abandonara jamais o seu povo; quando muito, o que houve foi justamente o contrário. De fato, já o profeta Jeremias alertara que não bastava Israel possuir um Templo e ter uma conduta religiosa expressa através de culto suntuoso (cf. Jr 7, 4ss). Deus deixava claro através desse profeta que era necessário que o Templo e o culto também se refletissem diretamente nas atitudes concretas do povo, especialmente para com os mais fracos da sociedade.
Fica evidente que Israel conheceu sua ruína, em boa parte, porque caiu na tentação dos caminhos fáceis: fechou-se numa liturgia ritualista; reduziu o Templo a um mero fetiche, a um objeto mágico, e o culto que deveria ser a expressão da aliança com Deus, tonou-se apenas um culto de palavras vazias (“Este povo me honra com os lábios...” Is 29,13).
Israel ao proceder de forma artificial acabara por enveredar pelos caminhos dos injustos e dos ímpios (cf. Sl 1). Quantas vezes não estamos também nós nesse caminho? Quantas vezes ao rezar na liturgia o Pai-nosso, por exemplo, as palavras são pronunciadas por nossa boca apenas como uma fórmula vazia de sentido. Quantas vezes invertemos em nosso coração a petição “seja feita a vossa vontade” ao pensarmos em nosso íntimo: “Sim, mas na verdade, ó Deus, o que eu quero mesmo é que o Senhor faça a minha vontade!” (cf. Lc 22, 42)?
Quantas vezes não vivemos num divórcio prático entre celebração e vida? Os profetas, de modo geral, dentre tantas denúncias feitas dos desvios do povo em relação a Deus, evidenciaram o fato das grandes liturgias de Israel terem se esvaziado de conteúdo (cf. Os 6,6) e serem realizadas sem aquilo que realmente importava: o amor a Deus e o amor ao próximo.
Mais uma vez queremos lembrar aqui a afirmação profética do magistério da Igreja: “o gesto litúrgico não é autêntico se não implica um compromisso de caridade, um esforço sempre renovado por ter os sentimentos de Cristo Jesus, e para uma contínua conversão”. (Medellín, 9, 3).
Por isso mesmo Deus coloca a questão sob outra perspectiva: “Não será antes o vosso modo de proceder que não está certo?... ao fazer o mal, é em virtude do mal que [o ímpio] morre...” (v. 25b-26).
Parece que assim como Israel, também nós temos que aprender a praticar aquilo que realmente importa para Deus: o caminho do direito e da justiça seja para com o próximo, seja para com Deus (v. 28). Para aprender esse caminho, é preciso um toque de graça da parte de Deus: “Tudo o que fizeste conosco, com razão o fizestes, pois pecamos contra vós e não obedecemos aos vossos mandamentos. Mas honrai o vosso nome, tratando-nos segundo vossa misericórdia”(Antífona de entrada).
Por isso o salmista apresenta-nos a sua súplica que se torna pedido de toda a comunidade:“Mostra-me teus caminhos, Senhor, ensina-me tuas veredas” (Salmo responsorial; tradução daBíblia de Jerusalém).
Mais uma vez nos deparamos com a metáfora do “caminho” para indicar a relação filial entre Deus e o seu povo. Um caminho pontilhado de altos e baixos, de desvios e de afastamentos de Deus; mas também um caminho de gratuidade, de perdão e de misericórdia por parte de um Deus que desce (é o tema da segunda leitura) ao encontro do homem para elevá-lo até si: “Ó Deus, que mostrais vosso poder sobretudo no perdão e na misericórdia, derramai sempre em nós a vossa graça, para que, caminhando ao encontro das vossas promessas, alcancemos os bens que nos reservais” (Oração do dia).
Esse caminho de encontro é garantido pelo bem por excelência que Deus nos reservou: o Espírito, concedido por meio de seu Filho (cf. Jo 14; 15; 16) e que habita em todo batizado.
No Evangelho, Jesus propõe aos judeus a parábola dos dois filhos chamados a trabalhar na vinha. A imagem usada por Jesus é uma referência à situação de Israel e da Igreja, o novo Israel.
Na parábola Jesus indaga seus ouvintes sobre qual dos dois irmãos havia realizado a vontade paterna: aquele que declinara o convite do Pai – situação de envergonhar um Pai e totalmente reprovável no filho, especialmente no contexto Palestinense –, mas que ao final, tomado pelo remorso fora trabalhar, ou o outro, que havia concordado com o pai verbalmente, evitando problemas e mantendo uma “fachada” de obediência, mas que de fato decide não ir trabalhar. Todos responderam de modo unânime: o filho que, apesar de ter se pronunciado negativamente e fora até a vinha para o trabalho, este sim, cumprira a vontade do pai. É muito interessante esta imagem da parábola.
Como se sabe, são as ações que revelam o mais íntimo de nosso ser e não as palavras. É o que Jesus, de certo modo, também nos mostra neste relato.
Aqui vale a pena um pequeno parêntese: curiosamente estamos nos aproximando das eleições das esferas governamentais. Seria muito interessante utilizar este método ofertado pelo evangelho no momento de escolhermos nossos candidatos: já vimos que quando se trata de discursos, de palavras, os nossos políticos, em sua grande maioria, são imbatíveis. Para separar o joio do trigo é preciso olhar não para os belos discursos, mas para a prática de vida de nossos candidatos e escolher aqueles que apresentaram a maior coerência entre a fala e a ação concreta visando o bem comum.
Em se tratando da revelação do ser, Cristo revelou-se como caminho que conduz ao Pai (Cf. Jo 14, 6) não só em palavras, mas com a própria vida, de fato. Esse aspecto da total revelação de Deus em Jesus na sua auto-doação ao Pai nos é mostrado de modo admirável pelo apóstolo São Paulo na segunda leitura. De fato, Ele o Cristo Senhor que “estando na forma de Deus (tradução da Bíblia de Jerusalém) não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas se despojou, tomando a forma de escravo. Tornando-se semelhante aos homens... abaixou-se, tornando-se obediente até a morte” (Fl 2, 6-8).
“Nascendo na condição humana, renovou inteiramente a humanidade. Sofrendo a paixão, apagou nossos pecados. Ressurgindo, glorioso, da morte, trouxe-nos a vida eterna. Subindo, triunfante, ao céu, abriu-nos as portas da eternidade” (Prefácio IV dos Domingos do Tempo Comum).
É um grande mistério, pois abaixando-se, o Cristo eleva-se ao céu abrindo “para nós a fonte de toda bênção” (cf. Oração sobre as oferendas).
Em Cristo, Deus desceu das alturas e assumiu a baixeza de nossa condição humana. Em tudo semelhante a nós, fora o pecado, o Cristo elevou nossa humanidade à glória da Santíssima Trindade abrindo-nos o caminho para a divindade: “Nisto conhecemos o amor de Deus: Jesus deu sua vida por nós; por isso nós também devemos dar a nossa vida pelos irmãos” (antífona da comunhão)
“Em verdade vos digo: os publicanos e as prostitutas vos precederão no Reino de Deus. Pois João veio a vós, num caminho de justiça e não crestes nele”. (Mt 21, 31-32).
Jesus proclama a grande misericórdia de Deus. Em todo seu ministério Jesus se fez próximo àqueles que viviam fora dos padrões religiosos da sociedade judaica (cf. Mt 11, 19; Lc 7, 34; Mc 2, 16).
Como terão soado essas palavras de Jesus aos ouvidos dos judeus? Certamente não terão sido acolhidas com tranquilidade, pois Jesus foi simplesmente “politicamente incorreto” dentro das convenções religiosas judaicas de então – e, quem sabe, talvez também em relação às nossas convenções de hoje...
Jesus com suas palavras proclama que Deus não olha para a religião ritualista, mas sim para o essencial, para o coração; afinal, - como diria o Pequeno Príncipe, personagem da obra magistral de Antoine de Saint-Exupéry - “só se vê bem com o coração”!
Jesus certamente não se opõe aos ritos, nem à religião, mas ele chama a atenção para o que é central: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade. Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar, sem contudo deixar o restante” (Mt 23, 23).
Jesus também não quer dizer que Deus ama o pecado cometido pelas prostitutas e pelos publicanos, afinal o salário do pecado é morte (cf. Rm 6, 23). Jesus louva, ao invés, o fato destes pecadores arrependidos terem reconhecido a presença de um Deus misericordioso em suas vidas, coisa que os sacerdotes e doutores judeus, em sua pretensa sabedoria e santidade “conquistada” à força do exercício de ritos não conseguiram reconhecer.
Diante deste Evangelho é possível que nos perguntemos: onde hoje está minha vida refletida? Nos pecadores arrependidos e desejosos de experimentar o Deus do perdão e do amor? Ou será que minha vida está refletida numa conduta religiosa que crê conquistar a simpatia de Deus apenas com o esforço pessoal?
“Senhor, eu não sou digno (a) de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo (a)” (Rito da comunhão).
Embora todos sejamos indignos de tal graça, o Senhor olhou para nossa sorte e nos associou ao seu mistério de morte e vida, renovando nossa vida e tornando-nos homens e mulheres novos, dignos: “Ó Deus, que a comunhão nesta Eucaristia renove a nossa vida para que, participando da paixão de Cristo neste mistério, e anunciando a sua morte, sejamos herdeiros da sua glória”(Oração depois da comunhão).
Que nesta liturgia, ao celebrarmos o mistério, possamos todos experimentar o amor e a misericórdia de Deus para conosco e, desse modo, possamos igualmente corresponder a esse amor e essa misericórdia praticando a justiça e a retidão para com o próximo

SÃO PAULO, quinta-feira, 22 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos o comentário à Liturgia da Palavra do 26º Domingo do Tempo Comum – Ez 18, 25-28; Sl 24(25), 4bc-5.6-7.8-9; Fl 2, 1-11; Mt 21, 28-32 – redigido pelo professor Gabriel Frade. Natural de Itaquaquecetuba (São Paulo), Gabriel Frade é leigo, casado e pai de três filhos. Graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), possui Mestrado em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora D’Assunção (São Paulo). Atualmente é professor de Liturgia e Sacramentos no Mosteiro de São Bento (São Paulo) e na UNISAL – Campus Pio XI. É tradutor e autor de livros e artigos na área litúrgica.
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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

24º DOMINGO DO TEMPO COMUM Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos... Leituras: Eclo 27, 33 – 28, 9; Rm 14, 7-9; Mt 8, 21 -35


Liturgia da Palavra: Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos...

“Quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim?” (Mt 18,21). À pergunta de Pedro, Jesus responde estendendo a já generosa concessão do apóstolo, até o infinito horizonte divino da medida sem medida. “Até sete vezes?.... Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (18,22). Na linguagem bíblica, estes números têm significado simbólico: indicam plenitude, totalidade. Jesus os multiplica por si mesmos, acentuando o paradoxo. Ele sugere que a medida autêntica da misericórdia e do perdão recíproco não se encontra no homem. Sua nascente é divina, está no próprio Pai, por isso não aguenta cálculos e medidas estabelecidas segundo razoáveis critérios humanos de proporção entre culpa, arrependimento e perdão. 
O céu do Pai inicia na terra dos homens, quando eles se reconhecem e se sustentam como irmãos, na fragilidade do pecado assim como no perdão recebido por Deus e partilhado. Jesus abre o caminho com seu constante compromisso de solidariedade e de misericórdia para com os marginalizados, os pobres, os pecadores, os adversários hostis que procuram sua morte.
A parábola que apresenta a estranha maneira de acertar as contas do patrão com seus empregados se faz carne na vida e na morte de Jesus. Na cruz, Jesus invoca: “Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem” (Lc 23,34).
Para os discípulos, tal perspectiva é extraordinário dom de graça, potencialidade a desenvolver, chamado desafiador a seguir, tendo os olhos fixos em Jesus, que revelou o coração do Pai, e sustentados pelo exemplo de tantas testemunhas do passado e do presente, que os precederam  no seguimento do mestre divino.
“Se amais os que vos amam, que graça alcançais?.... Muito pelo contrário, amai vossos inimigos, fazei o bem e emprestai sem esperar coisa alguma em troca. Será grande a vossa recompensa, e sereis filhos do Altíssimo, pois ele é bom para com os ingratos e com os maus. Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso”  (Lc 6, 32. 35-36).
O exemplo de Jesus se torna ensino dado com autoridade e palavra eficaz. Dele nasce uma nova geração de homens e mulheres que vivem na própria carne a qualidade de vida, própria de Deus, tornando-se “seus filhos e filhas”, segundo a sublime palavra de Jesus. A gratuidade do amor até o perdão e o amor aos inimigos são atitudes e gestos divinos. “O amor, diz São Bernardo, basta a si mesmo... É para seu mérito, seu próprio prêmio. Além de si mesmo, amor não exige motivo nem fruto. Seu fruto é o próprio ato de amar. Amo porque amo, amo para amar”. (Dos Sermões sobre o Cântico dos Cânticos, 83,4; LH IV; na festa de São Bernardo)
Através dos gestos de misericórdia e de perdão dos discípulos de Jesus, manifesta-se a incomensurável misericórdia do Pai, e se atua o reino de Deus na terra.
O amor radical de Deus para com o homem se transforma no amor radical do homem para com seu próximo. O agir humano se transforma no agir divino. A pessoa, renovada em Cristo, torna-se tanto mais rica em humanidade quanto mais divinamente orientada.
A comunidade para a qual Mateus escreve seu evangelho, com o fim de iluminar-lhe a vida, é a mesma que tinha nascido pela potência do Espírito no dia de Pentecostes em Jerusalém, e que tinha levantado a admiração de todo o povo pela união profunda entre seus membros, embora provindos de nações, línguas, culturas e experiências tão diferentes. Esta comunhão profunda entre os irmãos se tornou motivo de louvor ao Senhor e de atração de novos irmãos, enquanto “o Senhor acrescentava cada dia ao seu número os que seriam salvos” (At 2, 46-47).
Com o decorrer do tempo e o ampliar-se do número dos novos discípulos, as relações entre os irmãos de origem judia e os de origem pagã se tornam complicadas ao nível pessoal, (cf At 6,1: queixas dos gregos e instituição dos 7 diáconos), assim como na interpretação da missão e do ensino de Jesus, o Messias de Deus e o Salvador (cf At 10-11: missão privilegiada de Israel e extensão do chamado aos pagãos).
Os Atos dos Apóstolos testemunham abundantemente os desafios e o difícil caminho que a jovem comunidade cristã é chamada a enfrentar, sob o discernimento do Espírito, sob a colaboração dos irmãos, e a direção dos apóstolos. Eles mesmos – como atestam as experiências de Pedro, de Paulo e de Tiago, testemunhadas pelos Atos dos Apóstolos e pelas Cartas de Paulo – foram submetidos pelo Senhor a repetidas passagens de conversão interior e de mudanças de estilo nas relações recíprocas.
A comunidade experimenta a fragilidade da fé: dúvidas sobre a fidelidade à Lei de Moisés e a passagem à pessoa de Jesus, o cumprimento da Lei, as faltas relativas à caridade, o peso dos prejulgamentos, a pretensão de possuir em exclusividade os dons do Espírito.
Existe amplo espaço para tensões, faltas, misericórdia e... perdão recíproco! 
Como reagir? Mateus indica o caminho, propondo a parábola de Jesus. A generosa acolhida do irmão que falha, acompanhada pelo perdão recíproco, é condição essencial para viver o perdão do Pai, que é a substância da boa nova anunciada por Jesus, e por ele entregue como fundamento do novo povo de Deus. Deixar-se guiar por esta atitude generosa do Pai faz da comunidade dos discípulos a casa de Deus na terra.
O contraste entre a enorme dívida perdoada ao empregado por parte do patrão, movido por compaixão, e, por outro lado, a incapacidade do empregado beneficiado, de quitar a pequena soma devida a ele por seu companheiro, destaca a absoluta gratuidade do perdão do Pai, e como o perdão recíproco constitui uma real participação ao estilo do Pai por parte da comunidade. A comunidade cristã se configura como comunidade de perdoados, que o Espírito do Ressuscitado (cf Jo 20, 22-23) faz capazes de se perdoar reciprocamente, preanunciando assim profeticamente a reconciliação definitiva de todos na casa do Pai.
A oração entregue por Jesus aos discípulos é muito mais do que uma extraordinária fórmula de oração brotada do coração do Filho bem amado. Ela exprime a profunda identidade da comunidade cristã, que vive a boa nova do perdão do Pai, invocado, recebido e partilhado. “Pai nosso, que estás no céu, santificado seja o teu nome.... E perdoa-nos as nossas dívidas como também nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6, 9.12).
Através da experiência do perdão e da reconciliação, cada dia a comunidade está aprendendo que “nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou-nos seu filho como vítima de expiação pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, devemos, nós também, amar-nos uns aos outros ” (1 Jo 4,  10-11; cf Rm 5, 8-12).
A Igreja, que “é em Cristo como que o sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (Constituição Lumen Gentium n.1), celebra a si mesma no Sacramento da Penitência e reconciliação.
A mesma Igreja está bem consciente que assumir e fazer próprio o estupefativo comportamento divino é fruto do nosso mergulhar no mistério pascal de Cristo e não do nosso esforço de autodesenvolvimento moral. É a graça que junto com ela pedimos como presente da eucaristia de hoje: “Ó Deus, que a ação da vossa eucaristia penetre todo o nosso ser, para que não sejamos movidos por nossos impulsos, mas pela graça do vosso sacramento” (Oração depois da comunhão).
De fato, os impulsos nos empurram para outra direção. Para a direção que aparentemente parece satisfazer a sede de se afirmar e dominar o outro, quando na realidade nos prende dentro de um processo sem fim de autodestruição e de morte. “Se ele que é um mortal, guarda rancor, quem é que vai alcançar perdão para os seus pecados? Lembra-te do teu fim e deixa de odiar; pensa na destruição e na morte e persevera nos mandamentos” (Eclo 28, 5-6). Ao contrário, o perdão concedido ao irmão que nos ofende abre ao perdão de Deus: “Perdoa a injustiça cometida por teu próximo: assim, quando orares, teus pecados serão perdoados” (Eclo 28, 2).
Se a nossa vida está de verdade orientada para o Senhor, nada nos separa dele, quaisquer que sejam os acontecimentos da vida. Mesmo na morte, ficamos em relação com o Senhor da vida. A partir desta relação profunda com o Senhor, reencontramos plenamente os irmãos (2 Leitura – Rm  14, 7-9).
Dois chefes leigos de estado, o da Itália e o da Croácia, nações que no passado se combateram duramente em sangrentas guerras e vinganças, há poucos dias (4 de setembro 2011), falando em nome dos respectivos povos, traduziram em termos políticos de alto valor, o ensino de Jesus. Depois de ter reconhecido cada um as culpas da própria nação, proclamaram: “Agora nos perdoamos reciprocamente o mal que fizemos uns aos outros”.
Com o apóstolo Paulo, poderíamos afirmar que esta maneira de relacionar-nos, imitando o estilo de Deus, é o verdadeiro culto no Espírito ao Senhor, pois nela se manifesta a maneira nova de pensar, de julgar e de agir, que leva consigo a conformação a Cristo (cf Rm 12, 1-2).
De fato esta é a atitude que pede o próprio Jesus: “Portanto, se estiveres para trazer tua oferta ao altar e ali te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e depois virás apresentar tua oferta” (Mt 5, 24).
A reforma litúrgica promovida pelo Concílio e aprovada pelo Papa Paulo VI tem introduzido como parte integrante da celebração eucarística o gesto de nos saudarmos uns aos outros como um sinal de reconciliação e de paz, antes de aproximar-se ao altar para receber a santa comunhão. É um gesto exigente e profético na sua simplicidade. É importante que seja cumprido com participação interior e devoção, como se convém aos irmãos e irmãs que se aproximam à mesa do Senhor.
Com o magnífico Salmo responsorial (Sl 102,1-12), contemplamos o coração de Deus, tão promissório pela bondade, a fidelidade e o amor que continua nos acompanhando no nosso caminho, assim como guiou nossos pais. A complicada história da aliança o testemunha. “Bendize, ó minha alma ao senhor, e todo meu ser seu santo nome... Pois ele te perdoa toda culpa e cura toda tua enfermidade... Não fica sempre repetindo as suas queixas, nem guarda eternamente seu rancor... Quanto os céus por sobre a terra se elevam, tanto é grande o seu amor aos que o temem...” (Sl 102, 1-4; 9-12). Desta magnífica história, por sua graça, somos hoje os protagonistas, junto com o Senhor. Deste salmo de louvor, os novos compositores.
Movida por esta consciência, cheia de maravilha e de gratidão, a Igreja, com a reforma litúrgica depois do Concílio, tem elaborado pela primeira vez na história da liturgia duas Orações Eucarísticas (a 7a e a 8a do Missal Romano), nas quais o tema-guia do louvor e do agradecimento ao Pai é o dom da reconciliação e do perdão em Cristo e entre os irmãos. Os dois textos litúrgicos merecem profunda atenção, sendo uma rica fonte de oração e de catequese.
Transformando o evangelho de hoje em oração cheia de esperança, o prefácio da Oração VIII canta: “No meio da humanidade, dividida em contínua discórdia, sabemos por experiência  que sempre levais as pessoas a procurar a reconciliação. Vosso Espírito Santo move os corações, de modo que os inimigos voltem à amizade, os adversários se dêem a mão e os povos procurem reencontrar a paz”.
Temos a percepção que as perspectivas a nós oferecidas pela palavra do Senhor nos superem demais? Possa nos sustentar a sábia palavra de um homem de Deus, rico da sua experiência: “Guarda pois, a palavra de Deus, porque são felizes os que a guardam; guarda-a de tal modo que ela entre no mais íntimo de tua alma e penetre em todos os teus sentimentos e costumes. Alimenta-te deste bem, e tua alma se deleitará na fartura... Se assim guardares a palavra de Deus, certamente ela te guardará” (São Bernardo, Sermão 5,3, sobre o Advento do Senhor; LH I, I semana do Advento, quarta-feira)

Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração
SÃO PAULO, quinta-feira, 8 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos o comentário à Liturgia da Palavra do 24° domingo do Tempo Comum – Eclo 27, 33 – 28, 9; Rm 14, 7-9; Mt 8, 21 -35 –, redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneo Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele é monge beneditino camaldolense.
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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

20° DOMINGO DO TEMPO COMUM - Liturgia da Palavra: Mulher, grande é a tua fé! Leituras: Is. 56, 1.6-7; Rm 11, 13-15;.29-32; Mt 15, 21-28




20° DOMINGO DO TEMPO COMUM –A
Mulher, grande é a tua fé!
Leituras: Is. 56, 1.6-7; Rm 11, 13-15;.29-32; Mt 15, 21-28
“Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres!” E desde este momento sua filha ficou curada. (Mt 15,28). 
Eis que por fim, esta mãe sofrida pela sorte da filha, esta mulher estrangeira e pagã, estranha ao povo de Israel, à sua dignidade de povo de Deus e à sua religiosidade, elementos que constituem a identidade e o orgulho dos judeus diante dos outros povos, com sua fé confiante e perseverante, conduz Jesus a superar toda discriminação das pessoas diante da aliança do Senhor, na base da raça, do sexo e da religião.
A cura imediata da filha é a prova visível da potência da fé dos simples de coração e da salvação que vem de Jesus. Assim como, ao contrário, por falta de fé dos seus concidadãos, Jesus tinha experimentado a impossibilidade de realizar algum milagre e cura em Nazaré (Mc 6,5-6). 
Com a presença de Jesus, a fé nele constitui a única condição e a verdadeira maneira de participar na herança “dos filhos” de Abraão, e de pertencer ao povo de Deus. Paulo chegará a formular com clareza este eixo central da boa nova de Jesus, na carta aos Gálatas: “Abraão confiou em Deus e isso lhe foi anotado como crédito. Compreendei que filhos de Abraão são os que têm fé. A escritura previa que os pagãos obteriam justiça pela fé, e assim Deus antecipa para Abraão a boa noticia: ‘por ti, todas as nações serão abençoadas’. Assim os que crêem são abençoados com Abraão que teve fé” (Gl 3, 6-9- trad. Bíblia do peregrino). 
A fé não somente insere na linhagem espiritual de Abraão, fazendo dos que crêem filhos/as dele, mas os faz “filhos/as de Deus” pela união deles a Cristo, condição que não anula as distinções entre as pessoas, mas supera toda discriminação na única família de Deus. Nesta única família, unida pela mesma fé, se realiza a promessa da fecundidade feita por Deus a Abraão: “Vós todos  sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus, pois, todos vós, que fostes batizados em Cristo, vos vestistes de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois vós sois um só em Cristo Jesus. E se vós sois de Cristo, então sois descendentes de Abraão, herdeiros segundo a promessa” (Gl 3, 26-29).
A visão do apóstolo nos oferece a perfeita realização da profecia de Isaías (Is 56,1.6-7- primeira leitura) sobre a acolhida dos pagãos em Jerusalém, cidade santa de Deus, a incorporação deles no povo de Deus, e a participação até o culto no templo, cume da identidade dos israelitas e seu direito exclusivo. Na pessoa de Jesus o templo se torna “casa de oração para todos os povos” (cf. Mt 21, 13; Jo 2, 19-22), posto que Ele, Jesus, é o verdadeiro o templo vivo.
Talvez não nos surpreenda muito a escassa sensibilidade dos discípulos diante da imploração sofrida da mãe da menina doente, que chega a ponto de pedir para que Jesus simplesmente a e para não mais incomodá-los (Mt 15,23). A mesma atitude eles tinham expressado diante do povo faminto, que estava seguindo e escutando a Jesus havia três dias (cf Mt 14,15).
O que nos toca profundamente, porém, é o silêncio inicial com que Jesus reage ao grito implorante da mulher: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim: minha filha está cruelmente atormentada por um demônio. Mas Jesus não lhe respondeu palavra alguma” (Mt 15, 22-23).  Trata-se do mesmo Jesus que, não só toma cuidado e cura todo doente que o procura, mas que mais de uma vez, toma ele mesmo a iniciativa de curar uma pessoa, sem que ela tivesse até mesmo manifestado algum pedido de socorro! Todo mundo lembra, por exemplo, da cura da mulher encurvada, efetuada na sinagoga em dia de sábado (cf. Lc 13,10-17), ou a cura do homem da mão paralisada, nas mesmas condições (cf. Lc 6,6-9).  
O misterioso silêncio inicial de Jesus, com certeza estimula a insistência da mulher.  Sobretudo nos deixa vislumbrar o mistério do “tempo oportuno”, preordenado pelo Pai, em vista da plena manifestação da ação de Jesus como Messias e salvador. Aquele tempo que São João chama de a “hora de Jesus”, e que o próprio Jesus espera com ansiedade e determinação, enquanto se identifica com sua paixão, morte e ressurreição.
Por ocasião das núpcias de Caná ele responde com determinação à sua mãe que o solicitava a intervir em prol dos noivos que se encontravam em dificuldade: “Que queres de mim mulher? Minha hora ainda não chegou” (Jo 2, 3-4). A fé confiante de sua mãe, faz com que de fato Jesus “antecipe” a sua hora: “Sua mãe disse aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser” (2,5). A água transformada em vinho marcou o inicio dos sinais de Jesus, manifestou a sua “glória “e despertou a fé dos discípulos. (cf Jô 2, 11-12). 
No encontro de Jesus com a mulher pagã, assim como nas núpcias de Caná, nos deparamos com a mesma pedagogia divina acerca dos tempos de desenvolvimento da semente do reino. Tempos estes que só o Pai conhece. Jesus assume esta mesma pedagogia do Pai e ensina aos discípulos a assumi-la na própria vida. No caminho espiritual, a espera, e até mesmo os atrasos, dizem os Padres da Igreja, aumenta o desejo e faz com que se chegue a encontrar o amado com maior intensidade e alegria. 
A capacidade de esperar na fidelidade de Deus e de perseverar na esperança comprova a qualidade da fé e do amor. “Os desejos santos crescem com a demora; mas se diminuem com o adiamento, não são desejos autênticos”, afirma São Gregório Magno (Hom. sobre os evangelhos, 25, 4-5; em Lit das Horas Vol. 3, 1436). 
A insistência perseverante na oração filial, à qual nos convida Jesus, não é uma barganha comercial com Deus, com o intuito de dobrá-lo às nossas supostas necessidades ou desejos. É a expressão do amor confiante que alcança o coração do Pai. E Ele providencia o que é melhor para seus filhos e filhas. “Pedi e vos será dado; buscai e vos será aberto; pois todo o que pede recebe; o que busca acha e ao que bate se lhe abrirá... Ora se vós, que sois maus sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhe pedem” (Mt 7, 7-8.11). Pode-se notar que S. Lucas, em lugar de “coisas boas”, coloca “o Espírito santo”. Isto diz que o Pai nos concede como dom mais precioso o seu próprio Espírito, e com o Espírito a verdadeira relação filial para cumprir sua santa vontade. 
O exemplo dos grandes amigos de Deus e potentes intercessores para o povo junto dele, nos abrem o caminho na direção desta atitude interior. Abraão (Gn 18,17-33), Moisés (Ex 32,7-14), e o próprio Jesus, que pela sua submissão ao Pai foi arrancado do poder da morte (cf. Heb 5,7) e agora, glorificado, vive para sempre junto do Pai e intercede por nós (cf. Hebr 7,25). A mulher cananéia, declara Jesus, pertence a esta família de autênticos filhos e filhas de Deus e de potentes intercessores: “Mulher, grande é a tua fé. Seja feito como tu queres!”. 
Uma segunda razão ainda mais complexa daquela do silêncio inicial de Jesus está no reconhecimento da prioridade de Israel no anúncio do reino de Deus, segundo a Aliança estabelecida com os pais e as promessas feitas a Abraão, aos patriarcas e aos profetas. O reconhecimento desta prioridade de Israel, junto com seu aperfeiçoamento na comunidade nascida da cruz de Cristo, é um critério basilar de toda a Escritura. Isso determina a unidade do projeto salvífico de Deus que se manifesta na unidade do Antigo e do Novo testamento. Segundo a fé cristã, Jesus é o centro e o cumprimento deste plano divino, que faz da história humana a história da realização do projeto salvífico de Deus, a história da salvação. 
O segundo passo de Jesus no seu diálogo com a cananéia o afirma: “Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15, 24).
Correntes consistentes do pensamento entre os letrados e as autoridades religiosas de Israel tinham transformado a prioridade da eleição e a missão de testemunha de Israel, derivante da aliança, em “privilegio exclusivo”, e a observância material das normas da Torá, em mecanismos automáticos de salvação. Contra estas presunções reagem os profetas e o próprio Jesus, que, enquanto reconhece a primazia da eleição de Israel, derruba as barreiras impróprias erigidas pelos homens, colocando ao invés a fé da pessoa no centro da relação com Deus. 
A mesma comunidade dos discípulos de Jesus, porém, teve que trilhar um longo caminho para superar o preconceito contra os pagãos, e precisou de uma longa viagem interior iluminada pelo Espírito Santo, como atestam os Atos dos Apóstolos e as Cartas de Paulo, para entrar definitivamente na perspectiva universalista de Jesus. A redação do texto de Mateus, proclamado hoje parece refletir a fadiga inicial da mesma comunidade. 
A tentação de se considerar exclusivos depositários da verdade do Senhor está hoje totalmente ausente das nossas comunidades? Somos acolhedores das pessoas que estão em busca do sentido da vida, com os mesmos sentimentos de generosa acolhida que Jesus Ressuscitado transmitiu aos discípulos? 
A narração do encontro com a mulher pagã, nos oferece em maneira plástica as etapas e a gradualidade do caminho percorrido pelo próprio Jesus, e que se torna exemplar pelos discípulos: do silêncio inicial, à menção dos pagãos como “cachorinhos”, à insistência perseverante da mulher, até a proclamação da grandeza da sua fé, que abre a porta à salvação expressa na cura da filha. 
Esta é de fato uma perspectiva muito parecida com aquela que Jesus exalta no centurião romano (Mt 8, 10-12).
A fundamentação da pertença ao reino de Deus na fé e sua extensão de Israel aos pagãos e a todos os seres humanos em Cristo, para que nele tenham salvação, constituem o âmago do evangelho do Novo Testamento e a herança essencial da Igreja de todos os tempos. Israel e os pagãos recebem em igualdade de condições a misericórdia de Deus, e delas vivem (Rm 11, 32).
Isto, todavia, se encontra com o mistério da recusa por parte da maioria do povo de Israel, primeiro destinatário das promessas de Deus. O “pequeno resto” que aceita, fica como testemunha da fidelidade de Deus e da esperança alimentada por todos em Cristo.  
O feito da recusa de Israel, junto com a permanência da sua eleição e missão, interpelará ao longo dos séculos e até hoje, a consciência da Igreja num nível teológico, assim como marcará as relações sociais e religiosas entre os cristãos e os judeus, muitas vezes conflituosas, até as tragédias do anti-semitismo do século vinte. 
Paulo, mesmo na angústia da sua consciência de filho de Israel e discípulo de Jesus, proclamado Messias e Senhor de toda a humanidade, declara com força: “os dons e a vocação de Deus são irrevocáveis” (Rm 11,29 ). Os capítulos 9-11 da carta aos Romanos, da qual provêm a segunda leitura de hoje, dá testemunho deste tormento interior diante do duplo mistério, da recusa de Israel por uma parte e da fidelidade absoluta de Deus à sua aliança com os pais de Israel e de Jesus.
O Concílio Vaticano II, na Constituição Dei Verbum, pôs em luz mais uma vez a unidade e a irrevogabilidade da Aliança de Deus e seu cumprimento pleno em Cristo: a Igreja está caminhando nos trilhos de Israel rumo ao cumprimento do reino de Deus com a vinda gloriosa de Cristo. 
Foi superada definitivamente a idéia teológica, difusa em certos ambientes cristãos, e que teve também graves consequências práticas na história, que a Igreja “substituiu” Israel no plano de Deus. 
A Declaração “Nostra Aetate” do mesmo concílio, reafirmou em maneira clara como “a Igreja de Cristo reconhece que os primórdios da fé e de sua eleição já se encontram nos patriarcas, em Moisés e nos profetas, segundo o mistério salvífico de Deus”. Reconhece a existência de “um grande patrimônio espiritual comum aos cristãos e aos judeus”, e por isso encoraja ambas as partes a fomentar e aprofundar o conhecimento e o apreço recíproco. Impelida pelo amor evangélico, reprova toda perseguição contra os judeus, como contra quaisquer homens, e qualquer manifestação anti-semita, (NAE n. 4). 
O papa João Paulo II, além de visitar a Sinagoga de Roma em 1986, pela primeira vez, por parte de um papa, chamou os judeus de “nossos irmãos maiores”, não por um ato de gentileza formal devida à hospitalidade que estava recebendo, mas como reconhecimento solene das comuns raízes nas quais afunda o mistério de Israel e o da Igreja.  
O magistério pastoral de João Paulo II, assim como o do papa Bento XVI, através de gestos de alto valor simbólico e dos seus ensinamentos, continuam encorajando os cristãos a recuperar o sentido da comum pertença ao único desígnio salvífico de Deus, e por isso a instaurar também novas e fraternas relações no comum testemunho ao amor de Deus.
Tudo isso faz parte da maneira de ser cristãos hoje, da nossa espiritualidade, do nosso estilo de vida, como filhos de Abraão e irmãos no Senhor.


Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração

SÃO PAULO, quinta-feira, 11 de agosto de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos o comentário à Liturgia da Palavra do 20º domingo do Tempo Comum –  Is. 56, 1.6-7; Rm 11, 13-15;.29-32; Mt 15, 21-28 –, redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneo Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele é monge beneditino camaldolense.
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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

19º DOMINGO DO TEMPO COMUM – A Liturgia da Palavra: “Coragem! Sou Eu. Não tenhais medo!”Leituras: 1 Rs 19,9a.11-13; Rm 9,1-5; Mt 14, 22-33


Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração

19º DOMINGO DO TEMPO COMUM – A
“Coragem! Sou Eu. Não tenhais medo!”
Leituras: 1 Rs 19,9a.11-13; Rm 9,1-5; Mt 14, 22-33
“Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Ouvindo isso, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta” ( 1 Rs 19,13a). “Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: Verdadeiramente, tu és o filho de Deus” (Mt 14,33).
Duas cenas de calma e serenidade quase paradisíacas, que acabam de concluir a atribulada travessia do deserto por parte do profeta Elias, e a longa noite dos discípulos, cheia de angústia ao lutar contra as ondas do lago agitadas pela tempestade. Apesar desse quadro, os protagonistas das duas histórias estão gozando tranqüilidade e paz profunda: dom surpreendente que acompanha o inesperado e íntimo encontro com o Senhor, que até pouco antes parecia estar ausente, surdo e mudo perante os seus gritos de medo e de ajuda.
Por um lado as cenas marcam o cume da condescendência de Deus para com o seu profeta Elias, e a intensa manifestação da senhoria de Jesus sobre os agitados acontecimentos da história, para com os discípulos. Por outra parte, a mudança radical do cenário marca o ponto de chegada do longo processo de conversão do profeta ao Senhor, assim como do crescimento da frágil fé de Pedro e dos demais discípulos. O medo paralisante de pouco antes se traduz na solene profissão de fé que proclama Jesus “Filho de Deus”. Quantas vezes Jesus, ao encerrar o encontro com um homem ou com uma mulher que vai em busca dele, confiante em sua ajuda, declara: “Vai, a tua fé te salvou!” (cf. Mc 5,34; Mt 15, 28). O Senhor abre para nós o mesmo trilho!
A profissão de fé dos discípulos nos coloca em cheio na plena luz da páscoa; páscoa que celebramos hoje, assim como em todo domingo, para que ilumine e oriente a partir de uma perspectiva interior nossos dias. Eles se sucedem uns aos outros, aparentemente iguais na repetição da rotina, e não raramente provados por feridas e fatigas sem saída. A luz do Ressuscitado os resgata do “não sentido”, e os faz lugar do possível encontro com o Senhor.
A Igreja nos acompanha com o dom da Palavra de Deus e com o pão de vida da Eucaristia, para que nos tornemos companheiros da longa trajetória interior de Elias e dos discípulos, partilhando com eles a mesma força transformadora da fé e a intimidade para com o Senhor, que caracterizam toda autêntica relação com ele.
O breve trecho do 1 livro dos Reis, proclamado na primeira leitura, nos apresenta apenas a conclusão da complicada história humana e interior de Elias, o primeiro dos profetas históricos de Israel. Ele é apresentado pela mesma escritura do AT e do NT, como modelo de tantos homens de Deus, chamados por ele a tornar-se seus amigos e corajosas testemunhas, na defesa da justiça em prol dos pobres, na recuperação das exigências da aliança estabelecida por Deus com Israel, na espera da vinda do Messias que vai restabelecer as condições para cumprir a originária aliança.
A compreensão profunda da extraordinária experiência de Deus, vivenciada pelo profeta na gruta do monte Horéb, pressupõe uma leitura atenta e partícipe da fascinante aventura humana e espiritual de Elias, narrada nos capítulos 18-19 do 1 livro dos reis. À sua luz se compreende a colocação desta história em conjunção com a narração da noite de Jesus mergulhado em profunda oração na montanha, e sua ida em socorro dos discípulos em dificuldade dentro do barco no meio da tempestade. Na complexidade das intrigas e das paixões humanas, se desvela a secreta pedagogia com que Deus dirige a história, chama e forma seus profetas para guardar e alcançar o cumprimento do seu projeto de vida.
Talvez seja útil lembrar alguns pontos salientes deste trajeto interior de Elias, para iluminar um pouco nosso próprio caminho existencial. Poderia nos ajudar também a entender porque a sua figura se tornou tão emblemática na tradição da própria Escritura, na tradição judaica posterior, naquela cristã, sobretudo na sua vertente mística, e até mesmo na tradição muçulmana. Cada uma delas se reconhece num ou no outro aspecto da sua experiência espiritual, como num espelho.
No momento mais alto da revelação da identidade e da missão de Jesus na transfiguração, ele aparece dialogando sobre o cumprimento da sua tarefa de messias sofredor com Moisés e Elias, os dois eixos do projeto salvífico de Deus na aliança, que está para se realizar na sua morte e ressurreição (cf Lc 9, 30-31).
O profeta, com zelo ardente pela pureza da fé de Israel com a violência de todo fundamentalista religioso (1 Rs 18,20-40), foi progressivamente transformado pelo próprio Senhor, através de uma série de despojamentos interiores, sempre mais sofridos e radicais. O Senhor lhe ordena de morar no deserto, onde aprende a se alimentar confiando na providência divina: os corvos trazem o pão e a torrente de água o sacia por um tempo limitado. O Senhor o envia a morar em terra pagã, sustentado por uma pobre viúva em Sarepta (1 Rs 17, 2-24).
O profeta pretende defender Deus com a matança dos profetas de Baal (1 Rs 18, 16-40). Foge para o deserto para salvar-se da vingança da rainha Jezabel, cai no extremo desânimo, o Senhor o socorre alimentando-o através de seu anjo, e o fortalece para cumprir seu caminho até a montanha do Senhor (1 Rs 19, 1-8).
O Senhor o interpela como profeta refugiado na gruta da montanha. Ele se queixa de estar correndo riscos mortais pelo Senhor, e reivindica mais uma vez o feito de ficar sozinho para defendê-lo (1 Rs 19, 10.14). Em resposta o Senhor lhe ordena de “sair da gruta” em que está amparado, para ficar diante dele que está para passar diante dele ( 1 Rs 19, 9-11; 13-14)). 
A gruta em que está refugiado, mais que na rocha da montanha, está escavada na realidade em seu pequeno mundo ideológico, onde falta o ar livre da vida e a visão ampla da realidade. O Senhor faz sair Elias deste túmulo de morte, e o faz nascer à vida nova. O murmúrio suave e brando é a habitação verdadeira do Senhor. A sua voz profunda é o silêncio que chega ao coração. Elias pode somente entrever a face do Senhor através do manto que cobre seu rosto, como a mão protetora de Deus cobriu o rosto de Moisés, na montanha do Sinai, para protegê-lo da luz insustentável da sua glória, concedendo-lhe o privilégio de contemplá-lo somente pelas costas (cf  Ex 33, 18-23).
Elias sai deste encontro radicalmente transformado (1 Rs 19, 9-14). Recebe a nova missão de promover a vida do povo, em Israel e em Damasco, e de transmitir seu carisma de profeta a Eliseu (1 Rs 19, 15-18). Somente quem tem em si mesmo a vida do Senhor pode transmitir vida.
Iniciada como fuga diante do poder prepotente da rainha Jezabel, a aventurosa viagem de Elias se transforma numa verdadeira peregrinação interior rumo ao centro de si mesmo, mais que uma transferência forçada de lugar geográfico para outro, com a finalidade de esconder-se. Marca o retorno às origens espirituais de Israel a descida do profeta nas profundidades do seu coração, onde encontra a verdadeira habitação do Senhor e a linfa vital da sua missão de profeta ao serviço do Deus da aliança e da vida.
Através da pedagogia, severa e doce ao mesmo tempo, dos progressivos despojamentos de si, o Senhor molda o seu profeta, até fazê-lo digno de encontrá-lo na intimidade e na paz, como supremo dom de graça. Está superada toda manifestação de força que se impõe, simbolicamente expressa pelos impetuosos elementos naturais do vento violento e forte que quebra as montanhas, ou do terremoto e do fogo ( cf  1 Rs 19,11-12). Tais sinais tinham acompanhado a manifestação de Deus a Moisés e ao povo junto do Monte Sinai no momento de estipular a aliança (cf Ex 19,16-24). Desaparece também toda pretensão de fazer-se como defensor de Deus e quase seu protetor!
Deus não precisa de defensores, mas de testemunhas da sua graça e da salvação que vem dele. Testemunhas que, antes de mais nada, sabem escutar o testemunho interior do próprio Espírito do Senhor que fala dentro de nós, nos atrai a si próprio, nos fortalece, e nos sugere o que  é importante de verdade a se dizer, diante do tribunal da história ( cf Mt 10, 17-20).
Apreender o caminho espiritual, deixando-nos guiar pelo próprio Senhor e a ser moldados pela sua pedagogia purificadora e libertadora, em tempo de marcado individualismo e protagonismo também na busca espiritual, é uma herança preciosa que nos vem do profeta e do próprio Jesus: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” (Mt 14,27).
Enquanto com a fórmula “Sou eu”, Jesus evoca o poder do nome divino (cf Ex 3, 14-15) pelo qual ele domina o mal, como deixam vislumbrar seu caminhar em cima das ondas e a calma da tempestade, ele vai encontro dos discípulos, como um pai que cuida da sua criança assustada, os encoraja, e igualmente encoraja Pedro na fraqueza da sua fé, já que ele segura prontamente em sua mão respondendo a seu grito de ajuda, sobe no barco e a tempestade se acalma.
A tradição cristã reconheceu neste evento, junto com a multiplicação dos pães, a imagem da Igreja na sua travessia ao longo da história, alimentada e sustentada pelo próprio Jesus. Na fé ela sabe e experimenta que Jesus não abandona os navegantes, assim como sabe que é ele mesmo a fortalecer a fé de Pedro e a garantir que o barco alcance seu destino, “para o outro lado do mar”, segundo o projeto de Deus.
Precisamos aprender o estilo da condescendência divina e da sua misericórdia solidária, num tempo em que cada um eleva o tom da voz para deixar-se ouvir, no atual show permanente e confuso das idéias e das propostas, onde se fica acentuando as cores de suas fardas e das suas bandeiras para afirmar seus princípios éticos, políticos, religiosos. Isto significa aprender com o profeta Elias a descer do monte Carmelo, lugar da matança dos profetas, e aprender a peregrinar com ele os duros trilhos do deserto até o monte Horeb, o lugar do encontro no silêncio com o Senhor e com as fontes da verdadeira vida. A mística não fecha a pessoa num mundo vazio, pelo contrário, a constrói com a mesma energia de Deus e a faz capaz de reconhecer e de cuidar do seu rosto divino, presente em toda pessoa e em toda situação.
Estas passagens espirituais e culturais constituem um desafio permanente no caminho pessoal e das comunidades cristãs de todo tempo. É difícil fazer próprio o estilo de Deus e de Jesus.
Depois que ele multiplicou os pães, o povo queria fazê-lo rei, destaca João, como que para garantir a continuidade da bonança material inesperada (Jo 6,15). Jesus, porém, refugiou-se sozinho na montanha, onde, numa noite de intensa oração face a face com o Pai, confirma sua escolha ao serviço do reino. Desta íntima relação com o Pai, ele desce em socorro potente e caridoso dos discípulos. Mas eles mesmos, observa S. Marcos, “ainda não tinham entendido nada a respeito dos pães, mas seu coração estava endurecido” (Mc 6, 52).
A Igreja conhece bem o tesouro da fé que nos anima, embora exposta a tantas fragilidades diante das provações da vida. Por isso nos convida a rezar com confiança o Pai, para que o nosso coração de filhos e filhas seja por ele mesmo fortalecido e alcancemos a tranqüilidade e a intimidade da casa paterna que esperamos: “Deus eterno e todo poderoso, a quem ousamos chamar de Pai, dai-nos cada vez mais um coração de filhos, para alcançarmos um dia a herança que prometestes” (Oração do dia).
A Oração Eucarística VI-B (Deus conduz sua Igreja pelo caminho da salvação) interpreta muito bem esta consciência viva da Igreja e a firme esperança que a anima em seu caminho.


SÃO PAULO, quinta-feira, 4 de agosto de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos o comentário à Liturgia da Palavra do 19º domingo do Tempo Comum –  1 Rs 19,9a.11-13; Rm 9,1-5; Mt 14, 22-33 –, redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneo Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele é monge beneditino camaldolense.
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sexta-feira, 29 de julho de 2011

18º DOMINGO DO TEMPO COMUM – A Liturgia da Palavra: "Dai-lhes vós mesmos de comer"

Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração



Dai-lhes vós mesmos de comer
Leituras: Is 55, 1-3; Rm 8, 35-37.39; Mt 14, 13-21
“Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes” (Mt 14, 14).
Eis que o reino de Deus, semente espalhada com generosidade em todo tipo de terreno, boa semente no meio do joio, pequeno grão de mostarda das potencialidades inesperadas, tesouro escondido no campo a ser procurado com discernimento vigilante e perseverança, vem à luz e se manifesta em toda sua energia vital em Jesus, que não mostra potência, mas se enche de compaixão ao ver o povo que o está procurando com tamanha insistência (Mt 14, 14).
O povo que procura por Jesus e o segue, vagando como ovelhas sem pastor, faminto da sua palavra e da esperança por ele suscitada, impele Jesus a sair de um cuidado prudente para consigo mesmo e para com seus queridos discípulos.
Para si e para eles tinha procurado um lugar deserto e afastado, para se subtrair à pressão do poder prepotente - manifestado na morte violenta de João pelas mãos de Herodes - e por um pouco de descanso, depois da fatigosa missão dos doze (Mt 14, 3; Mc 6, 31-32).
Escolha razoável, “mas, ao ver...”. O que Jesus vê o impele a sair do próprio cuidado, para encontrar e assumir sobre si mesmo o outro, o povo sofrido. Ele escreve na sua pele o ensino que vai transmitir aos discípulos, como condição essencial para tornar-se seu discípulo: “Aquele que acha a sua vida, a perderá, mas quem perde a sua vida por causa de mim, a acha” (Mt 10, 39). “Vinde a mim, todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo, e vos darei descanso” (Mt 11, 28).
Mais uma vez, na atitude compassiva e solidária de Jesus se manifesta o coração do Pai, desde sempre atento em ver a miséria, em ouvir o grito dos sofridos, e a intervir para abrir novos caminhos em favor deles (cf. Ex 3, 7-8). O Verbo de Deus, pelo qual tudo foi feito e no qual tudo tem consistência, continua a se fazer carne, a se esvaziar de poder, a assumir como própria a fraqueza de cada um, e a revelar assim a proximidade do Pai aos pequeninos (cf. Jo 1, 14. 18).
Nele, o céu desce à terra e a terra encontra o céu, naquele admirável intercâmbio que faz Deus tornar-se homem e o homem participar da vida de Deus. O cuidado na cura dos doentes ilumina a missão de Jesus, colocando-o no caminho do “Servo do Senhor”, que leva sobre si nossos sofrimentos, carrega nossas dores e nos cura por suas feridas (cf. Is 53, 4-5). O reino de Deus, escondido no campo e na pequenez do grão de mostarda, se torna experiência de renascimento à vida feita pelos pobres e famintos. Hoje, assim como ontem. A Palavra eficaz de Jesus manifesta sua energia vital para com todos aqueles que a procuram e se abrem a ele com fé.
A mesma estrutura narrativa do evangelista nos revela este dinamismo.
O acontecimento da alimentação milagrosa da multidão feita por Jesus marca uma passagem decisiva no processo da auto-revelação de Jesus como messias e da sua ação messiânica.  A multiplicação dos pães é testemunhada por todos os evangelistas. Enquanto Lucas (9,10-17) e João (6,1-13) a narram como um episodio único, Mateus (Mt 14,13-21; 15,32-39) e Marcos (Mc 6,30-44; 8, 1-10) a relatam duas vezes, caracterizando cada narração com acentos diferentes. Os estudiosos do NT observam que, através desta estrutura literária, os evangelistas destacam a atualidade da ação de Jesus e da Palavra de Deus, que se exprime e atua em contextos diferentes da vida do povo.
Enquanto a primeira narração de Mateus evidencia a missão e a ação de Jesus em prol do povo de Israel, em cumprimento das promessas de Deus aos patriarcas e aos profetas, a segunda sublinha sua extensão em favor dos pagãos. Jesus é o enviado do Pai para todos, e para todos os tempos e situações culturais, raciais, religiosas. Uma lição que a comunidade dos discípulos apreendeu aos poucos e com grande fatiga, e não sem contradições, como nos atestam as mesmas narrações evangélicas, os Atos dos Apóstolos e a história da Igreja ao longo dos séculos.
O contexto literário comum às duas narrações da multiplicação dos pães é constituído pelo deserto, pela procura do caminho de Deus, pela fome física e espiritual do povo. Elementos simbólicos de alta ressonância para ouvintes e leitores do evangelho, familiarizados com acontecimentos bem conhecidos do Antigo Testamento: a saída de Israel do Egito, com a dura experiência do deserto e a intervenção extraordinária de Deus, que alimenta seu povo com o maná (Ex 16; Nm 11); a multiplicação do azeite e do pão por parte do profeta Eliseu em prol da viúva (2 Rs 4).
Jesus, com seu gesto de solidariedade, atua como o verdadeiro Moisés, o profeta de Deus. Realiza o plano de Deus e oferece o alimento escatológico, capaz não somente de saciar a fome do corpo, mas de doar a vida plena.
Ele mesmo tinha vivenciado a experiência do deserto no início da sua missão. Submetido às provações, não aceita o convite do diabo para recorrer aos milagres. Pelo contrário, reafirma, diferentemente do Israel do deserto, que o verdadeiro pão que sustenta no caminho da vida não é o que o homem pode providenciar para si mesmo, mas a palavra de Deus: “Não de só pão vive o homem mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4, 4).
Este é o mesmo caminho que Jesus indica aos discípulos, como destaca a grande reflexão do próprio Jesus sobre o pão, na sinagoga de Cafarnaum, referida por João (Jo 6, 22 - 71).
Os discípulos, porém, estão ainda longe das perspectivas do mestre. São homens muito razoáveis: pedem a Jesus que ele despeça o povo, pois as condições do lugar deserto e a hora do tempo sugerem que o melhor é que o povo seja mandado embora para que cada um providencie para si mesmo. “Jesus porém....” (Mt 14, 16) tem outros critérios: o da solidariedade com o povo e o da confiança no Pai. Ele convida os discípulos a entrar no seu mesmo horizonte e a tornarem-se colaboradores ativos da sua escolha tão diferente: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14, 16).
A resposta dos discípulos não pode que destacar a absoluta desproporção dos meios à disposição diante da enorme necessidade: “Só temos cinco pães e dois peixes” (14, 17). Ele, porém, os transforma em colaboradores confiantes e ativos, pela fé que brota silenciosamente dos seus corações.
A escolha e o chamado inicial dos discípulos a segui-lo, assim como o chamado dos profetas a se tornarem voz e braço de Deus no meio do povo (cf. Is 6, 1-10; Jer 1, 4-10), não foram diferentes. Sempre acompanhados pela promessa: “Não temas, eu estou contigo”. Ontem, assim como hoje.
Na fragilidade do colaborador se manifesta a gratuidade e o poder da graça, nos lembra São Paulo ( 2 Cor 4,7).
Jesus acolhe as necessidades do povo em toda sua complexidade. Cuida do corpo, assim como do espírito, da fome física, assim como da palavra de vida. E abre o caminho para o pão que dá a vida plena e abundante, sendo ele mesmo o pão doado do Pai, que sustenta o povo na caminhada ao longo da história, até sua vinda gloriosa.
A fé da Igreja, desde a mais antiga tradição, vislumbrou na multiplicação dos pães o pão escatológico por excelência, a eucaristia, da qual se alimenta no dia do Senhor.
Na luz desta fé, o evento milagroso da multiplicação dos pães é narrado com a sucessão dos gestos de Jesus que constituem a estrutura da celebração eucarística desde a primeira tradição conhecida: “Jesus tomou os pães... ergueu os olhos para o céu... pronunciou a bênção... partiuos pães e os deu aos discípulos... Os discípulos os distribuíram” (14,19). A eucaristia é indicada nesta maneira como o lugar onde o próprio Jesus forma e alimenta o povo peregrinante de Deus.
Do quase nada, em relação ao número das pessoas, brota a superabundância, como da semente de mostarda brota o grande arbusto onde os pássaros fazem o ninho. “Misericórdia e piedade é o Senhor, ele é amor, é paciência, é compaixão.... Vós abris a vossa mão prodigamente e saciais todo ser vivo com fartura” (Sl 144- Responsorial).
Tal é a experiência que pode testemunhar todo aquele e aquela que se entrega com fé ao Senhor, até nas circunstâncias mais difíceis da vida. A entrega confiante e quase temerária ao seu amor se transforma em profunda alegria e inesperada paz. “Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome?... Em tudo isso somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou!” (Rm 8,35 – segunda leitura).
Hoje a comunidade cristã se encontra por sua vez na condição de enfrentar novos horizontes e desafios, nos quais a fome do homem e da mulher contemporânea assume novas formas e profundidades. Junto com a fome material, provocada pelos desequilíbrios sociais e econômicos, se eleva forte, embora confuso, o grito da fome espiritual e do sentido da vida por parte de tantas pessoas.
No seu recente discurso à FAO, papa Bento XVI destacou a dramaticidade desta situação e a exigência de uma profunda conversão pessoal e de mudanças das estruturas políticas e econômicas para deparar o drama, também através do empenho de pessoas honestas no âmbito profissional e político, come ele destacou em outras ocasiões: “A pobreza, o subdesenvolvimento, e portanto, a fome, são com freqüência os resultados de atitudes egoístas que, partindo do coração do homem, se manifestam no seu agir social, nas mudanças econômicas, nas condições do mercado, na falta de acesso ao alimento e traduzem-se na negação do direito primário de cada pessoa e nutrir-se e, portanto, e ser libertada da fome” [1].
Como fazer com que estas pessoas possam encontrar a compaixão de Jesus, e que o pão da vida seja distribuído também a elas?
Que não aconteça que, fechados nos pequenos mundos do passado, ligados a atitudes pastorais que tendem a repetir a si mesmas mais do que abrir-se aos novos pedidos, contentes de repetir nossa linguagem eclesiástica, herdeira de outro contexto cultural e espiritual, corramos o risco de oferecer pedras a quem nos pede pão, e cobras a quem nos procura peixes, como nos admoesta Jesus (cf Mt 7, 9).
Mateus e Marcos, com a dupla narração da multiplicação dos pães, nos ensinam que é preciso saber atualizar a palavra, para que Jesus possa continuar a atuar na vida de cada um. O Concílio Vaticano II não propôs à Igreja inteira o critério da “fidelidade dinâmica e criativa” ao evangelho e à tradição doutrinal e espiritual, para ficar fiel ao Senhor e à missão em prol dos homens e das mulheres do nosso tempo, para os quais ela é enviada como a Esposa solícita do Verbo vivente do Pai?
É realmente a palavra do Senhor o que estamos oferecendo ao povo de Deus no nosso ensino e em nossas homilias, ou, às vezes a misturamos e substituímos com palavras piedosas de nossa invenção, do nosso grupo, da nossa ideologia, talvez prometendo até milagres?
Paulo com clareza denuncia que a falta de solidariedade para com os irmãos necessitados constitui uma contradição radical com a celebração da ceia do Senhor (cf 1 Cor 10, 20-22),
e “quem não reconhece” o corpo do Senhor, que é o eucarístico e também a comunidade, “come e bebe a própria condenação” (1 Cor 10, 29).
A tomada de consciência da seriedade e da beleza da participação à eucaristia se faz invocação humilde para que o Senhor sustente com o pão da vida o caminho coerente da comunidade: “Acompanhai, ó Deus, com proteção constante os que renovastes com o pão do céu e, como não cessais de alimentá-los, tornai-os dignos da salvação eterna” (Oração depois da comunhão)
Notas: 
1. Discurso aos participantes à XVII Conferencia  da Organização das Nações Unidas para a Alimentação  e a Agricultura – FAO  em inglês - Roma , 1 de julho 2011.


SÃO PAULO, quinta-feira, 28 de julho de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos o comentário à Liturgia da Palavra do 18º domingo do Tempo Comum – Is 55, 1-3; Rm 8, 35-37.39; Mt 14, 13-21 –, redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneo Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele, monge beneditino camaldolense, assina os comentários à liturgia dominical, às quintas-feiras, na edição em língua portuguesa da Agência ZENIT. 
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