quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Você é portador da juventude de espírito ou é um “velho”, mesmo jovem?


Por Alfonso Aguiló

Certo dia, um garoto viu como um elefante de circo, depois do espetáculo, era amarrado com uma corrente a uma pequena estaca cravada no chão. O garoto espantou-se ao ver que um animal tão grande era incapaz de libertar-se daquela estaca tão pequena. Contemplou a cena por um bom tempo. Surpreendia-o, sobretudo, o fato de o elefante não fazer o menor esforço por soltar-se.

Decidiu perguntar ao tratador por que acontecia isso. Este respondeu: “É muito simples: o elefante está amarrado numa estaca como essa desde pequeno; como naquela época não era capaz de escapar, desistiu de tentá-lo e hoje não sabe que a estaca é muito pouca coisa para ele. Lembra-se apenas de que durante muito tempo não podia fugir”.

Talvez aconteça algo de parecido conosco em algum aspecto da nossa vida. Há barreiras que nos sufocam porque durante muito tempo as fomos considerando insuperáveis e, ainda que hoje tenhamos forças para ultrapassá-las, não o fazemos por continuarmos a vê-las como algo fora das nossas possibilidades.

Temos de cultivar a sadia capacidade de descobrir as nossas falsas convicções, as escravidões que nos acorrentam, as idéias simples que não queremos questionar porque põem em perigo velhas concessões feitas à falta de vontade de lutar. Devemos lançar fora a soberba sutil que envolve a nossa mente e a enreda em tolas reações de inveja, ciúmes ou ressentimentos que nos aprisionam. Ou esforçar-nos mais para sair das teias da murmuração, da ira ou do mau-humor. Ou ainda reconhecer fixações pouco honrosas, como o álcool, o sexo ou o videogame.
Poderíamos encontrar muitos exemplos de pequenas amarras que imobilizam grandes vontades, de homens que não se decidem a livrar-se delas porque desconhecem a magnitude daquilo que os freia e não se dão conta de que essas amarras são ninharias que poderiam cortar perfeitamente.

A amarra mais grave de todas é a ignorância sobre aquilo que nos prende, pois não é possível lutar contra alguma coisa que não percebemos; e se não lutarmos, permaneceremos sempre cativos. Por isso, temos de agradecer aos amigos que nos fazem ver essas amarras, por mais que isso nos doa. Aliás, a dor que sentimos ao ouvir certas coisas é um sintoma claro de que este ou aquele amigo acertou.

Outro grande inimigo é a falta de esperança. Não temos a esperança de podermos superar os obstáculos que nos travam e muitas vezes acontece conosco o que aconteceu com certa águia acorrentada: havia tentado por muito tempo libertar-se da corrente e levantar vôo… e, de fato, conseguiu-o na sua última tentativa, mas cansou-se e resignou-se ao seu confinamento sem notar que já estava livre.

Com demasiada freqüência, esquecemos que as grandes conquistas são quase sempre alcançadas após muitas tentativas fracassadas. Tendemos a acomodar-nos, a conformar-nos com as nossas correntes porque nos custa quebrá-las; e então nos autoconvencemos de que não existem ou de que pouco nos importa que existam.

Há um tipo de esperança – escreveu Josef Pieper – que brota da energia juvenil, mas que se esgota com os anos, com o declinar da vida: as nossas memórias voltam-se para o “já não” em vez de se dirigirem para o “ainda não”. Mas a verdadeira esperança oferece ao homem um “ainda não” que triunfa sobre o declínio das energias naturais. Dá ao homem tanto futuro que o passado passa ser considerado “pouco passado”, por mais rica e longa que tenha sido a vida. A esperança é a força do desejo voltado para um “ainda não” que, quanto mais nos aproximamos dele, mais se distancia.

Por isso, a verdadeira esperança produz uma eterna juventude. Comunica ao homem elasticidade e leveza, uma juventude exigente e flexível ao mesmo tempo, qualidade própria dos corações fortes. Trata-se de uma valentia despreocupada e confiante, que caracteriza e distingue o homem de espírito jovem, fazendo dele um exemplo sumamente atrativo. A esperança confere uma juventude inacessível à velhice e à desilusão. Assim, se todos os dias perdemos um pouco da nossa juventude natural, também todos os dias podemos renovar a nossa juventude de espírito. Em vez de nos esforçarmos por prestar culto à juventude do corpo – que se esvai juntamente com a esperança que pomos nela –, temos de olhar para cumes mais altos, onde seja possível ao homem ancorar a sua esperança e rejuvenescer o seu espírito.

Advento - A chegada de um Novo Ano Litúrgico na Igreja


Meditando a chegada de Cristo, devemos buscar o arrependimento dos nossos pecados e preparar o nosso coração







O Ano Litúrgico começa com o Tempo do Advento; um tempo de preparação para a Festa do Natal de Jesus. Este foi o maior acontecimento da História: o Verbo se fez carne e habitou entre nós. Dignou-se a assumir a nossa humanidade, sem deixar de ser Deus. Esse acontecimento precisa ser preparado e celebrado a cada ano. Nessas quatro semanas de preparação, somos convidados a esperar Jesus que vem no Natal e que vem no final dos tempos.
Nas duas primeiras semanas do Advento, a liturgia nos convida a vigiar e esperar a vinda gloriosa do Salvador. Um dia, o Senhor voltará para colocar um fim na História humana, mas o nosso encontro com Ele também está marcado para logo após a morte.
Nas duas últimas semanas, lembrando a espera dos profetas e de Maria, nós nos preparamos mais especialmente para celebrar o nascimento de Jesus em Belém. Os Profetas anunciaram esse acontecimento com riqueza de detalhes: nascerá da tribo de Judá, em Belém, a cidade de Davi; seu Reino não terá fim... Maria O esperou com zelo materno e O preparou para a missão terrena.
Para nos ajudar nesta preparação usa-se a Coroa do Advento, composta por 4 velas nos seus cantos – presas aos ramos formando um círculo. A cada domingo acende-se uma delas. As velas representam as várias etapas da salvação. Começa-se no 1º Domingo, acendendo apenas uma vela e à medida que vão passando os domingos, vamos acendendo as outras velas, até chegar o 4º Domingo, quando todas devem estar acesas. As velas acesas simbolizam nossa fé, nossa alegria. Elas são acesas em honra do Deus que vem a nós. Deus, a grande Luz, "a Luz que ilumina todo homem que vem a este mundo", está para chegar, então, nós O esperamos com luzes, porque O amamos e também queremos ser, como Ele, Luz.
No lº Domingo, há o perdão oferecido a Adão e Eva. Eles morreram na terra, mas viverão em Deus por Jesus Cristo. Sendo Deus, Jesus fez-se filho de Adão para salvar o seu pai terreno. Meditando a chegada de Cristo, que veio no Natal e que vai voltar no final da História, devemos buscar o arrependimento dos nossos pecados e preparar o nosso coração para o encontro com o Senhor. Para isso, nada melhor que uma boa Confissão, bem feita.
Até quando adiaremos a nossa profunda e sincera conversão para Deus?
No 2º Domingo, meditamos a fé dos Patriarcas. Eles acreditaram no dom da terra prometida. Pela fé, superaram todos os obstáculos e tomaram posse das Promessas de Deus. É uma oportunidade de meditarmos em nossa fé; nossa opção religiosa por Jesus Cristo; nosso amor e compromisso com a Santa Igreja Católica – instituída por Ele para levar a salvação a todos os homens de todos os tempos. Qual tem sido o meu papel e o meu lugar na Igreja? Tenho sido o missionário que Jesus espera de todo batizado para salvar o mundo?
No 3º Domingo, meditamos a alegria do rei Davi. Ele celebrou a aliança e sua perpetuidade. Davi é o rei imagem de Jesus, unificou o povo judeu sob seu reinado, como Cristo unificará o mundo todo sob seu comando. Cristo é Rei e veio para reinar; mas o seu Reino não é deste mundo; não se confunde com o “Reino do homem”; seu Reino começa neste mundo, mas se perpetua na eternidade, para onde devemos ter os olhos fixos, sem tirar os pés da terra.
No 4º Domingo, contemplamos o ensinamento dos Profetas: Eles anunciaram um Reino de paz e de justiça com a vinda do Messias. O Profeta Isaías apresenta o Senhor como o Deus Forte, o Conselheiro Admirável, o Príncipe da Paz. No seu Reino acabarão a guerra e o sofrimento; o boi comerá palha ao lado do leão; a criança de peito poderá colocar a mão na toca da serpente sem mal algum. É o Reino de Deus que o Menino nascido em Belém vem trazer: Reino de Paz, Verdade, Justiça, Liberdade, Amor e Santidade.
A Coroa do Advento é o primeiro anúncio do Natal. Ela é da cor verde, que simboliza a esperança e a vida, enfeitada com uma fita vermelha, simbolizando o amor de Deus que nos envolve e também a manifestação do nosso amor, que espera ansioso o nascimento do Filho de Deus.
O Tempo do Advento deve ser uma boa preparação para o Natal, deve ser marcado pela conversão de vida – algo fundamental para todo cristão. É um processo de vital importância no relacionamento do homem com Deus. O grande inimigo é a soberba, pois quem se julga justo e mais sábio do que Deus nunca se converterá. Quem se acha sem pecado, não é capaz de perdoar ao próximo, nem pede perdão a Deus.
Deus – ensinam os Profetas – não quer a morte do pecador, mas que este se converta e viva. Jesus quer o mesmo: “Eu vim para que todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Por isso Ele chamou os pecadores à conversão: “Convertei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus” (Mt 4,17); “convertei-vos e crede no Evangelho” ( Mc 1,15).
Natal do Senhor, este é o tempo favorável; este é o dia da salvação!

Mudança de ano - Todo final de ano é oportunidade de revisão


Na Festa de Cristo Rei, quando Jesus é proclamado Rei do universo, normalmente no mês de novembro, terminamos o Ano Litúrgico. O domingo seguinte é o primeiro do Advento, de preparação para o Natal. Portanto, iniciando novo tempo, um novo ano, que começa com a preparação e o nascimento de Jesus Cristo.

Todo final de ano é oportunidade de revisão, de analisar o passado com olhar de esperança, porque temos em vista um futuro a ser construído. Olhar principalmente as atitudes de negligência praticadas quando deveríamos agir com determinação na construção do bem e de um mundo mais digno e fraterno para todos, sem distinção de classe ou raça.

É hora de colocar a nossa confiança toda em Deus.

A história de cada pessoa vai tomando rumos que têm de ser trabalhados em diversas dimensões: social, religiosa, política, econômica, psicológica, entre outras. É um caminho de libertação, que só tem plena realização numa confiança plena em Cristo, que é Rei e Salvador do universo.

Jesus Cristo é o Pastor que cuida do rebanho, busca a ovelha que estiver perdida e a apascenta com carinho e justiça. O Senhor não tolera exploração de uma ovelha sobre a outra e as trata com respeito. Assim dever fazer todo aquele que está à frente de uma comunidade, de um povo, com o objetivo de prestar serviço.

No tratamento com as pessoas, duas palavras são determinantes e ajudam no relacionamento. Uma é a vigilância, a preocupação constante e o cuidado feito com responsabilidade por quem de direito. Outra é a insensatez, as práticas de irresponsabilidade, que desabonam a autenticidade de quem age.

Devemos entender que a justiça se confunde com a prática de amor ao próximo. Ela cria espaço de convivência e de relacionamento fraterno entre as pessoas, possibilitando um mundo melhor e um novo ano de vitórias. O reino de Jesus Cristo é de amor, de paz, de justiça e fraternidade. Aí não pode haver lugar para o egoísmo. Que o novo ano litúrgico seja de acolhida fraterna.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Bispo de São José do Rio Preto.

Homilia Diária - 23.11.2011 - "O homem que confia em Deus testemunha na perseguição"

Jesus continua falando sobre as perseguições que os discípulos sofrerão. Estas advertências estão inseridas em Sua fala ao fazer o envio missionário.

As provações dos discípulos de Cristo têm um alcance escatológico, isto é, anteciparão não só a destruição de Jerusalém, mas também a própria Parusia. Tendo em vista que serão perseguidos tanto pelas sinagogas judaicas como por reis e governadores gentios.
Nos Evangelhos sinóticos encontramos conjuntos de textos escatológicos, com estilo apocalíptico, que prenunciam o fim dos tempos, de maneira trágica, com a volta do “Filho do Homem”. Este estilo literário reproduz a forma encontrada no Antigo Testamento, no qual, a partir do “Dia de Javé” – dia de terror para o mundo, porém, de glória para Israel – se elaborou uma literatura apocalíptica. A presença desses textos no Novo Testamento é o reflexo da antiga tradição das primeiras comunidades de convertidos do Judaísmo. Tais textos são encontrados, em bloco, nos “discursos escatológicos”, em Mateus (cap. 24-25) e em Marcos (cap. 13), e em dois discursos em Lucas. A invariabilidade das sentenças dos textos, nos três Evangelhos, leva a supor que os evangelistas recorreram às mesmas fontes de tradição, especificamente escatológicas.
O discurso escatológico em Marcos prioriza o prenúncio da destruição de Jerusalém, à qual é associada a vinda do Filho do Homem. No discurso escatológico de Mateus, as sentenças sobre a destruição de Jerusalém e sobre a vinda do Filho do Homem estão entremeadas. Lucas, em um primeiro discurso, destaca o tema escatológico da vinda do Filho do Homem (cf. Lc 17,22-37) e, em outro, retoma esse assunto a partir do tema da destruição de Jerusalém, incluindo também a perseguição contra os discípulos missionários (id. 21,5-36).
No início do ministério de Paulo havia uma expectativa da volta iminente de Jesus, a Parusia. Contudo, essa expectativa surtiu efeito negativo, tendo em vista que muitos passaram a viver uma vida ociosa e desordenada. Com o tempo, essa realidade [a expectativa da Parusia] foi desaparecendo, dando lugar à consciência da presença atual de Jesus nas comunidades dos discípulos, que lutam por um mundo novo possível.
O testemunho, nas perseguições e diante dos tribunais, não é resultado da eloquência, mas sim do abandono confiante nas mãos de Deus. É o próprio Jesus quem dá ao discípulo as palavras adequadas a serem proferidas diante dos tribunais. Lucas tinha em mente o testemunho de Estevão e outros mártires.
As comunidades dos discípulos, comprometidas com a missão, ao longo da história, têm vivido sob as diversas provações impostas pelos poderosos. A perseverança nas tribulações, suportadas em nome de Jesus, é o caminho para a vida.
Dai-me, Senhor, a graça da perseverança nas tribulações a fim de que eu tenha vida plena em Vós.
Padre Bantu Mendonça

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Jesus se oferece continuamente em sacrifício por nós

Até hoje, a Igreja permanece fiel ao Senhor, porque continua a celebrar a Eucaristia. Por meio da Eucaristia, em toda Santa Missa se realiza novamente o sacrifício que Jesus fez em nosso nome. Ele une céu e terra ao praticar tal ação. 

Jesus, no céu, é o grande intercessor. Diante do Pai, está constantemente de braços abertos, mostrando os sinais das chagas, intercedendo por nós.

Cristo permanece no céu da mesma forma que apareceu no cenáculo pela primeira vez aos apóstolos, quando lhes mostrou as Suas chagas ou quando desafiou Tomé para que tocasse nas chagas de Suas mãos e de Seus pés, colocando a mão no lado atravessado pela lança.

É assim que o Filho se apresenta ao Pai. Essa é a sua grande oração: oferecer-se continuamente em sacrifício.

Deus o abençoe!

Monsenhor Jonas Abib
Fundador da Comunidade Canção Nova

A superação de nossos problemas


É bom saber que crise alguma dura para sempre
Diante dos inesperados acontecimentos que surgem em nossas relações, aprendemos que, somente a partir deles, vamos crescer e amadurecer dentro de nossos relacionamentos.

É bom saber que crise alguma dura para sempre, tampouco é inédita. E para o nosso conforto, de alguma forma, sempre haverá perto de nós alguém que já tenha vivido uma história tão delicada quanto a nossa e, que tendo enfrentado situações semelhantes, apesar de toda dificuldade, naquele momento conseguiu encontrar soluções alternativas, fazendo dessa experiência uma lição de vida.

Assim, para aqueles que estão envoltos nos ventos das adversidades, fica a certeza de que também será possível vencê-las tomando como estímulo a história de superação de outras pessoas que passaram por provações. Isso não significa que os procedimentos que alguém tenha tomado para resolver um impasse seja exatamente o que precisaremos fazer.

As pessoas são diferentes, trazem hábitos e comportamentos próprios, dessa forma, aquelas atitudes que foram assumidas por outras pessoas poderão nos servir apenas como pistas para as alternativas que podemos optar diante do nosso problema. Contudo, conhecer outras histórias de superação nos enche da certeza de que também seremos capazes de vencer nossos obstáculos e dilemas que, por ora, enfrentamos nos desafios da nossa convivência.

Para essa retomada da esperança diante das adversidades, basta recobrar outros momentos de nossa história, quando, naquela ocasião, determinado problema nos parecia também não ter solução. Se as crises financeiras que atingiram alguns países os fizeram fortes após uma nova atitude e investidas para sair dos problemas; o mesmo acontece em nossas vidas, quando nos colocamos dispostos a viver o resgate dos laços dos nossos relacionamentos.

Lembremo-nos de alguns impasses que foram superados há 2 ou 3 anos… Quem sabe não encontremos outros que tenham sido recentemente superados. Para todos eles a solução comum para o problema foi a descoberta de que a resposta estava simplesmente no desejo de recomeçar.

Todas essas fases foram vencidas e, hoje, essas histórias fazem parte de mais um capítulo que vai compor o nosso filme autobiográfico das “causas superadas”. Talvez, no futuro, poucas pessoas venham a se interessar em assistir o nosso “filme”, mas as lembranças dos acontecimentos, os quais um dia foram superados, não permitirão que o desânimo nos faça desistir do propósito de viver um “longa-metragem” com quem escolhemos contracenar nesta vida.

Dado Moura
contato@dadomoura.com

A Inquisição

Em síntese: Realizou-se em Roma de 29 a 31 de outubro de 2000 um Simpósio Internacional sobre a temática da Inquisição, cujas atas fo­ram publicadas. O presente artigo transmite alguns traços importantes do grosso livro daí resultante, tendo em vista especialmente a bruxaria.
De 29 a 31 de outubro de 2000 realizou-se em Roma um Simpósio internacional sobre a densa temática da Inquisição. Pronunciaram-se sobre o fato com objetividade científica vários historiadores, cujos traba­lhos foram posteriormente editados sob o título “L’INQUISIZIONE", volu­me precioso pela riqueza dos temas debatidos.
O problema "Inquisição" já foi freqüentemente abordado em PR; ver 384/1994, pp. 214ss; 452/2000, pp. 2ss: 454 2000, pp. 120ss. Nas páginas subseqüentes consideraremos os traços de mentalidade que ins­piraram a Inquisição tais como são apresentados pelos expositores da temática do Simpósio.
1. A mentalidade inspiradora
A Apresentação do tema do Simpósio é da autoria do Cardeal Georges Cottier, que se refere à Exortação Apostólica “Tertio Millennio Adveniente". Neste documento o Papa João Paulo II pondera o tema "Inquisição" como sendo "um capitulo doloroso ao qual os filhos da Igreja não podem deixar de voltar numa atitude de arrependimento; com efeito, consentiram, principalmente em certas épocas, em aplicar métodos de intolerância e até de violência ao serviço da verdade" (n° 35).
Nesta passagem interessa salientar que, segundo o Papa, o arre­pendimento toca aos filhos da Igreja, ficando a Mãe Igreja avessa à culpa de seus filhos, pois é, conforme São Paulo, "a Esposa de Cristo sem mancha nem ruga" (Ef 5, 25-27). A distinção entre "Mãe Igreja" e "filhos da Igreja" corresponde à que Jacques Maritain propõe entre "Pessoa" e "pessoal da Igreja"; quem peca, são os filhos ou o pessoal da Igreja.
Pouco adiante o Papa acrescenta; "Verdade é que, para julgar cor­retamente o passado, não nos podemos dispensar de considerar atenta­mente os condicionamentos culturais da respectiva época; com efeito, pelo influxo desses condicionamentos muitos puderam, de boa fé (can­didamente), pensar que para dar autêntico testemunho da verdade era necessário reduzir ao silêncio, ou ao menos marginalizar, a opinião alheia. Freqüentemente concorriam vários motivos para a produção de um terre­no favorável à intolerância, alimentando um clima passional ao qual ape­nas grandes gênios verdadeiramente livres e cheios de Deus consegui­am de certo modo escapar" (n° 35).
E quais seriam esses condicionamentos culturais?
Sejam enumerados os três seguintes:
a)  Alta estima dos valores  espirituais
A alma humana, alimentada pela fé é chamada a participar da bem-aventurança do próprio Deus - verdade esta que era grandemente apre­ciada... Ora a heresia deteriora a fé e, segundo os antigos, é blasfêmia contra Deus e perigo de envenenamento para a alma humana. São To­más de Aquino (f 1274) levava esta concepção ao ponto de dizer que a heresia é crime de blasfêmia, que o Antigo Testamento punia com a pena capital,... considerada também crime de lesa-majestade divina que o Di­reito Romano punia com a mesma pena. São palavras do Santo Doutor:
"Os hereges podem licitamente ser condenados à morte por um julgamento civil, pois blasfemam contra Deus e observam uma falsa fé. Assim podem ser punidos com mais razão do que aqueles que cometem o crime de lesa-majestade ou o de falsificação de moeda" (II Sententiarum, dist. 13, questão 2, artigo 3c).
São Tomás fazia o paralelo entre a lesa-majestade divina e a impe­rial (humana) porque vivia num regime de Cristandade, que aspirava ao ideal da Cidade de Deus na terra ou à teocracia. Como ele, deviam pen­sar muitos mestres e discípulos de épocas passadas.
A esta nota cultural se associa a seguinte:
b)  "Um Tribunal assistido"
Sob este título o Prof. Jean-Louis Biget desenvolve considerações, mostrando que à Inquisição não podiam deixar de estar ligados interes­ses políticos, pois nada na Idade Média (e ainda posteriormente) era meramente leigo ou profano, dado o regime de Cristandade:
"A Inquisição é sempre considerada uma instituição da Igreja. Isto está certo, mas convém enfatizar uma realidade fundamental, evidente, mas freqüentemente esquecida, a saber: a Inquisição só podia atuar as­sociada aos poderes leigos. Ela não dispunha de poder material. Ela só podia incutir temor, se contasse com o apoio dos príncipes e dos Gover­nos. Em lugar nenhum os inquisidores podiam prender alguém, assentar-se, julgar, mandar executar sua sentença.... se não dispusessem da força armada e da assistência do regime local, dos seus representantes e dos seus agentes.
Essa colaboração era tida como um dever de Estado por parte dos detentores do poder temporal. Tal colaboração era mais fácil na medida do interesse dos governantes na confiscação dos bens dos condenados, que redundavam em favor do Estado em troca do sustento ministrado aos inquisidores - sustento este que criava uma forte dependência dos inquisidores em relação ao poder civil. Na verdade, os gastos com os inquisidores eram elevados, como demonstram as raras prestações de contas que foram conservadas.
Enfim é certo que a erradicação dos comportamentos indesejados e o reforço da unidade da Igreja e de unidade da fé serviu à unidade politica numa época em que o vínculo religioso era a única garantia da coesão das populações" (Atas p. 75).
Estas reflexões dão a entender ainda outro fato: com o passar do tempo, a Inquisição foi não somente sustentada, mas foi também mani­pulada pelo poder do Estado atendendo a interesses políticos: tenham-se em vista os casos dos Cavaleiros Templários, vítimas da Inquisição manipulada pelo rei Filipe IV o Belo, da França, em 1312, e o de S. Joana d'Arc, condenada por pressão das autoridades inglesas, porque impedia a invasão da França por parte da Inglaterra. Muito mais ainda foi manipu­lada a Inquisição na península ibérica, principalmente na Espanha, onde os reis queriam unificar a população eliminando judeus e árabes. Por causa da sua ingerência nos processos inquisitoriais os monarcas espa­nhóis entraram mais de uma vez em conflito com a Santa Sé; quando foi abolida no século XIX trazia o título de "Inquisição Régia". Ver PR 504/ 2004, pp. 432; 403/1995, pp. 549.
c) Demônios e bruxo(a)s
Entre os parâmetros culturais dos antigos, existe um que pode pa­recer especialmente estranho ao cidadão contemporâneo, mas que mo­tivou celeuma: a bruxaria.
Por "feiticeira" ou "bruxa" entendia-se, naquela época, uma mulher manipulada em seu corpo (sexualmente) pelo demônio. Admitia-se que o Maligno pudesse ter consorcio sexual com mulheres: se fosse demonio masculino, seria chamado íncubo (de noite copulava com mulheres, perturbando-lhes o sono e causando-lhes pesadelos, como se dizia). Se fosse demônio feminino, era dito súcubo, aquele que se deita por baixo, copulando com um homem e causando-lhe pesadelos. Deste contato carnal nasceriam filhos... filhos enfeitiçados e malvados sobre a terra!
Os medievais acreditavam na existência de tais seres e tais fenô­menos - o que, na verdade, é totalmente impossível, pois o demônio (anjo mau) não tem sexo nem corporeidade. Movidos por tal crença, os defensores da boa Ética, na Idade Média, não podiam deixar de se insur­gir com veemência contra tal procedimento; era, para eles, um dever de consciência ao qual não se podiam furtar sem que a consciência os acu­sasse gravemente.
Evidentemente em nossos dias nenhum teólogo afirma que o de­mônio tem corpo e pode efetuar cópula sexual. É espírito, independente de qualquer constituição somática. Os antigos, porém, tiveram dificulda­de de conceber um espírito puro, isento de corporeidade (ainda que etérea ou sutil). Os estóicos imaginavam o pneuma divino como algo de corpóreo a penetrar o mundo material. Os judeus iam mais longe: admitiam que os anjos tivessem pecado sexualmente com mulheres, dando ocasião ao dilúvio narrado em Gn 6-9; cf. Gn 6, 1s (e a interpretação dada pela tra­dução grega dos LXX). Na Tradição cristã, tal concepção esteve presen­te até o fim da Idade Média, como se vê; nunca foi dogma de fé, mas apenas tese comum.
Compreende-se que quem abraçasse tal pressuposto e admitisse a existência de íncubos e súcubos, reagisse energicamente contra tão grande mal. Os medievais o faziam de boa fé, dentro das categoriais de pensamento que lhes eram familiares e de cuja validade não duvidavam. Os historiadores que hoje consideram esse passado, tendem a julgá-lo através das categorias de pensamento modernas, exigindo dos antigos o que não sabiam, nem podiam dar.
Aos 5 de dezembro de 1484 o Papa Inocêncio VIII assinou uma Bula que condenava a prática da bruxaria, como se depreende do texto abaixo:
"Inocêncio Bispo, Servo dos Servos de Deus, para a perpétua re­cordação dos fatos...
Recentemente chegou aos nossos ouvidos, não sem nos molestar profundamente, a notícia de que em territórios da Alemanha Setentrional (províncias da Mogúncia, Colônia, Tréviris) assim como nas províncias, cidades, terras e nos locais de Salzburg e Bremen, várias pessoas de ambos os sexos, esquecidas de sua salvação e desviadas da fé católica têm tido relações com demônios íncubos e súcubos e mediante encantamen­tos, canções renegam sacrílegamente a fé do seu Batismo... por instiga­ção do inimigo do gênero humano...".
Aliás já aos 19 de abril de 1080 o Papa Gregório VII dirigia uma carta ao rei Hakon da Dinamarca em que condenava prática semelhante e a bruxaria existente naquele país, conforme o Prof. Gustav Henningsen, à página 595 das Atas.
Vê-se assim quão antiga e persistente foi a crença na possibilida­de de cópula carnal dos demônios com seres humanos. Tal temática será mais amplamente explanada no Apêndice deste artigo.
A propósito do número de pessoas condenadas pela Inquisição há quem fale de milhares ou mesmo milhões de vítimas, dando largas à fan­tasia sem citar documentação correspondente. Na verdade, não é possível avaliar o total de execuções perpetradas pela Inquisição, pois faltam esta­tísticas e registros que dêem uma noção fiel dos acontecimentos. As pró­prias Atas do Simpósio são sóbrias a respeito; um vislumbre da história é oferecido pelo Prof. Gustav Henningsen à p. 577ss nos seguintes termos:
"A fim de obter uma idéia mais exata da participação do Santo Ofí­cio na caça medieval às bruxas, examinei a relação de processos feita pelo Prof. Richard Kieckhefer e pude averiguar que os processos de bru­xaria propriamente dita estão repartidos entre tribunais civis, episcopais e inquisitoriais. De um total de mil causas. 63% foram julgadas pelas autoridades civis, 17% por tribunais episcopais, ao passo que 20% toca­ram à Inquisição.
Quase a metade dos 200 processos por bruxaria ficaram aos cui­dados de dois inquisidores alemães: Jacob Sprenger (1436-1495) e Heinrich Institores (1432-1492). Em dado momento a sua fanática perse­guição às bruxas no sul da Alemanha provocou a oposição das autorida­des civis e eclesiásticas. Os dois inquisidores , porém, apelaram para o Papa Inocêncio VIII, que respondeu com a citada bula "Summis Desiderantes Affectibus", de 5 de dezembro de 1484, bula na qual enu­mera os malefícios causados pelas bruxas: "matam a criança no ventre de sua mãe, fazem o mesmo com o feto do gado, extinguem a fertilidade dos campos, estragam os frutos da videira e de outras árvores frutíferas, prejudicam as plantações de trigo e outros cereais, molestam homens e mulheres com espantosas doenças internas e externas, impedem os ho­mens de copular e as mulheres de conceber, já que marido e mulher não se reconhecem mais".
A bula papal teve como resultado fazer que o povo desse seu apoio à Igreja no combate a bruxaria.
A minuciosa consideração do passado sugere uma reflexão sobre o presente e o futuro da Igreja.
2. O olhar se volta do passado para o presente e o futuro
O Cardeal Georges Cottier, seguindo o traçado da Exortação Apos­tólica "Tertio Millennio Adveniente", propõe uma lição do passado para o presente e o futuro da Igreja assim formulada por João Paulo II:
"Dessas atitudes dolorosas do passado depreende-se uma lição para o futuro, lição que deve incitar todo cristão a observar a regra de ouro definida pelo Concílio: 'A verdade só se impõe pela força da própria verdade, que penetra o espírito com suavidade e não menos poder'" (n° 8).
"Por fim, o passado nos convida a um sério exame de consciên­cia... Os cristãos devem colocar-se humildemente na presença do Se­nhor para se interrogar sobre a responsabilidade que lhes toca frente aos males do nosso tempo" (n° 36).
O Papa João Paulo II voltou mais explicitamente a este ponto na sua bula sobre o Mistério da Encarnação, datada de 29 de novembro de 1998:
"A história da igreja é uma história de santidade. O Novo Testa­mento sublinha esta característica dos batizados: são "santos" na medi­da em que, separados do mundo enquanto sujeito ao Maligno, se consa­gram a prestar o culto ao único e verdadeiro Deus: de fato, esta santida­de manifesta-se nas vidas de tantos Santos e Beatos reconhecidos pela Igreja, mas também na vida de uma multidão imensa de mulheres e ho­mens desconhecidos, cujo número é impossível calcular (cf. Ap 7, 9). A sua vida atesta a verdade do Evangelho, oferecendo ao mundo o sinal visível de que a perfeição é possível. No entanto, é forçoso reconhecer que a história registra também numerosos episódios que constituem um contra-testemunho para o cristianismo. Por causa daquele vinculo que nos une uns aos outros dentro do Corpo místico, todos nós, embora não tendo responsabilidade pessoal por isso e sem nos substituirmos ao juízo de Deus - o único que conhece os corações -, carregamos o peso dos erros e culpas de quem nos precedeu. Mas, também nós, filhos da Igreja, pecamos, tendo impedido à Esposa de Cristo de resplandecer em toda a beleza do seu rosto. O nosso pecado estorvou a ação do Espírito no coração de muitas pessoas. A nossa pouca fé fez cair na indiferença e afastou muitos de um autêntico encontro com Cristo".
Em suma, é de grande valor a coletânea de estudos que acaba de ser sumariamente apresentada com a seguinte sinalação biblioteconômica: L’INQUISIZIONE: Atti Del Simposio Internazionale, Città dei Vaticano 29 a 31 ottobre 2000, a cura de Agostino Borromeo. - Cole­ção "Studi e Te st i" n° 417, edição da Biblioteca Apostólica Vaticana 2003.
Fonte:
Revista Pergunte e Responderemos nº 523 / Janeiro de 2006
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A Besta do Apocalipse


Um dos símbolos mais mal entendidos no livro do Apocalipse é a besta que surge do mar no capítulo 13 (há também uma besta da terra, mas este artigo não focará nela).

São excessivas as especulações sobre a identidade da besta. Os anticatólicos frequentemente a identificam com um futuro “Império Romano restaurado”, o qual eles também querem conectar, de um modo ou de outro, com a Igreja Católica.
Para descobrir quem é a besta realmente, é preciso olhar seriamente para o texto em questão.
Frequentemente, as pessoas raciocinam assim: A besta tem dez chifres e surge do mar (13,1). Em Daniel 7, o profeta Daniel viu uma série de quatro bestas ascendendo do mar, a última das quais tinha dez chifres (Dn 7,7). Logo, a besta de João é a mesma que a quarta besta de Daniel. Aquela besta simbolizava o Império Romano. Logo, esta besta simboliza o Império Romano.
Um problema com este raciocínio é que ele foca somente na parte do simbolismo no Apocalipse 13. Não apenas a besta que João vê tem dez chifres, como a quarta besta de Daniel; ela tem também um corpo como de leopardo (13,2a), como a terceira besta de Daniel (7,6); pés como de um urso (13,2b), como a segunda besta de Daniel (7,5); e uma boca como um leão, como a primeira besta de Daniel (7,4). A besta que João vê, desta maneira, incorpora o simbolismo de todas as quatro bestas de Daniel, tornando impossível simplesmente identificá-la com a quarta da série.
Esta é parte da “fusão de imagens” que o Apocalipse contém. Assim como João viu anjos em torno do trono de Deus (4,6-8) que incorporavam elementos de ambos o serafim de Isaías (Is 6,2-3) e o querubim de Ezequiel (Ez 10,10-14), agora ele vê uma besta que incorpora elementos de todas as bestas de Daniel 7. Isso sugere que a nova besta seja como aquelas quatro – o mesmo tipo de coisa que elas são – mas não sejam identificadas com qualquer uma delas.
Um outro problema é que a quarta besta de Daniel não simboliza o Império Romano – pelo menos não como seu referente primário. Ao contrário, o seu referente central é o reino que resultou quando o reino de Alexandre o Grande desmoronou.
Entre os chifres da quarta besta de Daniel, surgiu um pequeno chifre particular que blasfemava contra Deus (7,8). Este pequeno chifre simboliza Antíoco IV (“Antíoco Epífanes”), o rei selêucida que conquistou Jerusalém, blasfemou contra Deus e profanou o templo, e introduziu a primeira “abominação da desolação” (Dn 11,31; 12,11; 1 Mac 6,7) instalando um ídolo de Júpiter Olimpo no lugar sagrado. (Há outros tempos que uma “abominação de desolação” foi introduzida, cf. Mt 24,15-16; Lc 21,20-21).
O que as quatro bestas de Daniel têm em comum é que todas elas são reinos pagãos que perseguiram e dominaram o povo de Deus, Israel. A besta de João é o mesmo tipo de coisa – uma conquista de um império pagão. Visto que vem depois das quatro bestas de Daniel, Roma é a candidata lógica. Mas não é um porvir, “Império Romano restaurado”. É a coisa real, o Império Romano pagão dos primeiros séculos. Isto é confirmado por diversas linhas de evidência.
Primeiro, o livro do Apocalipse é explícito em declarar que diz respeito a eventos que acontecerão “em breve” (1,1; 2,16; 3,11; 22,6; 7; 12; 20). Isso indica que a carga de acontecimentos do livro (aqueles que precedem o Milênio de Ap 20,1-10, no qual estamos vivendo agora) deveria acontecer brevemente depois que o livro fosse escrito, provavelmente na década de 60 d.C.
Segundo, sabemos que o número da besta é 666 e que este é o número do nome de um homem (13,18). Não coincidentemente, o Império Romano pagão perseguidor estava chefiado nos anos 60 depois de Cristo por César Nero, cujo nome somava 666 no sistema de letras e números hebraico. (Em hebraico, “Caesar Nero" = "NRWN QSR" = N 50 + R 200 + W 6 + N 50 + Q 100 + S 60 + R 200 = 666; uma grafia variante do nome, NRW QSR, soma 616, a qual alguns manuscritos têm no lugar de 666).
Terceiro, as sete cabeças da besta são identificadas com sete montanhas (17,9). Embora não seja certo, estas são provavelmente as sete colinas sobre as quais a cidade de Roma foi construída. (A Colina do Vaticano, entretanto, não era uma das sete; está no lado do rio Tibre oposta às sete.)
Assim sendo, há boa evidência de que a besta do mar seja o Império Romano pagão do primeiro século e, em especial, o imperador em sua chefia. Isto, novamente, é como as quatro bestas de Daniel, que foram descritas tanto como quatro reis (Dn 7,17) quanto quatro reinos (cf. Dn 7,23).
Uma confirmação posterior é encontrada no Apocalipse falando do templo judeu como se ele ainda estivesse operando (11,1), mas logo ser pisoteado pelos gentios, junto com a cidade santa (11,2). Logo depois do reino de Nero, os gentios invadiram Jerusalém, pisotearam-no e destruíram o templo.
Isso sugere não somente que a besta correspondia ao Império Romano em geral e a César Nero em particular, como também que o próprio livro do Apocalipse foi escrito no começo dos anos 60, durante o reino de Nero, pouco antes da Guerra dos Judeus que levou à destruição de Jerusalém e do templo em 70 d.C.
POR JAMES AKIN
Traduzido para o Veritatis Splendor por Marcos Zamith.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Solenidade de Cristo Rei

HOMILIA DO SANTO PADRE
Domingo, 26 de Novembro de 2000
1. "Tu o dizes: sou rei" (Jo 18, 37).
Assim respondeu Jesus a Pilatos num diálogo dramático, que o Evangelho nos faz ouvir novamente na hodierna solenidade de Cristo, Rei do universo. Nessa ocorrência, colocada na conclusão do ano litúrgico, Jesus, Verbo eterno do Pai, é apresentado como princípio e fim de toda a criação, como Redentor do homem e Senhor da história. Na primeira leitura, o profeta Daniel afirma: "O seu poder é um poder eterno, que nunca lhe será tirado. E o seu Reino é tal que jamais será destruído" (7, 14).

Sim, ó Cristo, Vós sois Rei! Paradoxalmente, a vossa realeza manifesta-se na cruz, na obediência ao desígnio do Pai "que como escreve o Apóstolo Paulo nos arrancou do poder das trevas e nos transferiu para o Reino do seu Filho amado, no Qual temos a redenção, a remissão dos pecados" (Cl 1, 13-14). Primogénito daqueles que ressuscitaram dos mortos, Vós, Jesus, sois o Rei da nova humanidade, restituída à sua dignidade primitiva.

Vós sois Rei! Porém, o vosso reino não é deste mundo (cf. Jo 18, 36); não é o fruto de conquistas bélicas, de dominações políticas, de impérios económicos, de hegemonias culturais. O vosso é um "reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz" (cf.Prefácio da solenidade de Cristo Rei), que se manifestará na sua plenitude no fim dos tempos, quando Deus será tudo em todos (cf. 1 Cor 15, 28). A Igreja, que já pode saborear na terra as primícias que se hão-de realizar no futuro, não cessa de repetir: "Venha o vosso reino", "Adveniat regnum tuum" (Mt 6, 10).

2. Venha o vosso reino! Rezam assim, em toda a parte do mundo, os fiéis que se reúnem hoje à volta dos seus Pastores para o Jubileu do Apostolado dos Leigos. Uno-me a eles com alegria neste coro universal de louvor e súplica, celebrando juntamente convosco, caros fiéis, a Santa Missa junto do Túmulo do Apóstolo Pedro.

Agradeço ao Cardeal James Francis Stafford, Presidente do Pontifício Conselho para os Leigos e aos vossos dois representantes, que no início da Santa Missa se fizeram intérpretes dos comuns sentimentos. Saúdo os venerados Irmãos no Episcopado, assim como os sacerdotes, religiosos e religiosas presentes. Estendo a minha saudação em especial a vós, irmãos e irmãs leigos,christifideles laici, activamente dedicados à causa do Evangelho: olhando para vós, penso também em todos os membros de comunidades, associações e movimentos de acção apostólica; penso nos pais e mães que, com generosidade e espírito de sacrifício, se consagram à educação dos seus filhos na prática das virtudes humanas e cristãs; penso em quantos oferecem à evangelização o contributo dos seus próprios sofrimentos, aceites e vividos em união com Cristo.

3. Saúdo-vos de modo particular, caros participantes no Congresso do Laicado católico, que bem se insere no contexto do Jubileu do Apostolado dos Leigos. O vosso encontro tem como tema "Testemunhas de Cristo no novo Milénio". Ele retoma a tradição dos congressos mundiais do Apostolado dos leigos, iniciada há 50 anos sob o impulso fecundo de uma consciência mais profunda que a Igreja tinha adquirido, quer da própria natureza do mistério de comunhão quer da sua intrínseca responsabilidade missionária no mundo.

No amadurecimento desta consciência, o Concílio Ecuménico Vaticano II assinalou uma mudança decisiva. Com o Concílio, na Igreja chegou verdadeiramente a hora do laicado e tantos fiéis leigos, homens e mulheres, compreenderam com maior clareza a própria vocação cristã que, por sua própria natureza, é vocação ao apostolado (cf. Apostolicam actuositatem, 2). A 35 anos da sua conclusão, digo: é preciso voltar ao Concílio. É preciso retomar nas mãos os documentos do Vaticano II para redescobrir a grande riqueza dos estímulos doutrinais e pastorais.

Deveis retomar nas mãos aqueles documentos, em particular vós, leigos, a quem o Concílio abriu extraordinárias perspectivas de envolvimento e de compromissso na missão da Igreja. O Concílio não recordou acaso a vossa participação na função sacerdotal, profética e real de Cristo? Os Padres conciliares confiaram-vos, de modo especial, a missão de "procurar o reino de Deus, tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus" (Lumen gentium, 31).

A partir de então, floresceu uma vivaz época agregativa, em que ao lado do associativismo tradicional surgiram novos movimentos, sodalícios e comunidades (cf. Christifideles laici, 29). Hoje, mais do que nunca, caríssimos Irmãos e Irmãs, o vosso apostolado é indispensável para que o Evangelho seja luz, sal e fermento de uma nova humanidade.

4. Mas o que comporta esta missão? Que significa ser cristão hoje, aqui e agora?

Ser cristão nunca foi fácil e tão-pouco o é hoje. Seguir Cristo exige a coragem de opções radicais, frequentemente contra a corrente. "Nós somos Cristo!", exclamava Santo Agostinho. Os mártires e as testemunhas da fé de ontem e de hoje, entre os quais tantos fiéis leigos, demonstram que, se for necessário, por Jesus Cristo não se deve hesitar nem sequer em dar a própria vida.

A este propósito, o Jubileu convida todos a um sério exame de consciência e a uma duradoura renovação espiritual, para uma acção missionária cada vez mais activa. Agora quero retomar aquilo que, há 25 anos, quase no encerramento do Ano Santo de 1975, o meu venerado predecessor Papa Paulo VI escrevia na Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi: "O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres... ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas" (n. 41).

São palavras válidas ainda nestes dias, diante de uma humanidade rica de potencialidades e de expectativas, porém ameaçada por múltiplas insídias e perigos. Basta pensar, entre outras coisas, nas conquistas sociais e na revolução no campo genético; no progresso económico e no subdesenvolvimento existente em vastas áreas do planeta; no drama da fome no mundo e nas dificuldades existentes para assegurar a paz; nas minuciosas redes das comunicações e nos dramas da solidão e da violência difundidos pela crónica diária. Caríssimos Irmãos e Irmãs, como testemunhas de Cristo, sois chamados especialmente vós a levar a luz do Evangelho aos centros vitais da sociedade. Sois interpelados a ser profetas da esperança cristã e apóstolos "d'Aquele que é, que era e que vem, o Omnipotente!" (Ap 1, 4).

5. "A santidade é o adorno da tua casa!" (Sl 92, 5). No Salmo responsorial, voltamo-nos para Deus com estas palavras. A santidade continua a ser o maior desafio para os fiéis. Devemos estar gratos ao Concílio Vaticano II que nos recordou que todos os cristãos são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade.

Caríssimos, não tenhais medo de enfrentar este desafio: ser homens e mulheres santos! Não esqueçais que os frutos do apostolado dependem da profundidade da vida espiritual, da intensidade da oração, de uma formação constante e de uma adesão sincera às directrizes da Igreja. Repito-vos hoje, como fiz aos jovens durante a recente Jornada Mundial da Juventude, que se fordes o que deveis ser isto é, se viverdes o cristianismo sem comprometimentos podereis incendiar o mundo.

Esperam-vos deveres e metas que podem parecer desproporcionados às forças humanas. Não percais a coragem! "Aquele que em vós iniciou esse bom trabalho, vai continuá-lo até que seja concluído" (Fl 1, 6). Conservai sempre fixo o olhar em Jesus. Fazei d'Ele o coração do mundo.

E Tu, Maria, Mãe do Redentor, sua primeira e perfeita discípula, ajuda-nos a ser as suas testemunhas no novo milénio. Faz que o teu Filho, Rei do universo e da história, reine na nossa vida, nas nossas comunidades e no mundo inteiro!

"Louvor e honra a Vós, ó Cristo!". Com a vossa Cruz redimistes o mundo. A Vós confiamos, no início do novo milénio, o nosso compromisso ao serviço deste mundo que Vós e nós amamos. Sustentai-nos com a força da vossa graça! Amém.